Domingo, 18 de Fevereiro de 2007
OS STONES NO DRAGÃO


publicado por pedrasrollantes às 22:38
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007
A MINHA MELHOR AMIGA, O MEU ANJO DA GUARDA, A MINHA LUZ.


publicado por pedrasrollantes às 19:09
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito

Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
ROLLING STONES EM COPACABANA - O MAIOR ESPECTÁCULO DO MUNDO


publicado por pedrasrollantes às 23:43
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

JAGGER E BONO - DOIS MALUCOS OU DOIS DEUSES


publicado por pedrasrollantes às 23:38
link do post | comentar | favorito

CONTO V - O GATO

Os gatos são animais fabulosos. Levam-nos a alimentá-los, acarinhá-los e a proporcionar-lhe todo o conforto em troca de quase nada. Apetece perguntar: quem domesticou quem? Dizem que o gato não é fiel ao seu dono, mas a natureza é sempre surpreendente.

 

O GATO

 

 

Foi como uma birra de crianças. Eduardo nem era um grande advogado. Ocupava-se apenas de pequenos litígios e divórcios. Para que queria ele uma secretária? Simplesmente para mostrar alguma grandeza aos colegas. Quase duas dezenas de raparigas responderam ao anúncio, mas ele tinha um critério de escolha muito simples: escolheu a mais bonita. Marina tinha vinte e seis anos e era uma autêntica top-model: loura alta e de formas esculturais. A sua competência deixava tudo a desejar mas era ideal para a função pretendida: a função de uma bela fachada.

Eduardo estava sentado no seu modesto gabinete olhando sem qualquer expressão no rosto a fotografia de Rosa. Conhecera-a ainda na faculdade. Casaram pouco depois da formatura dele, visto que ela não completou os estudos. Foram o protótipo do casal feliz até que aquela secretária loura entrou na sua vida como um vírus infeccioso.

Marina era incompetente mas não era burra. Eduardo, apesar de advogado medíocre era um bom partido. Em pouco tempo estudou-lhe o perfil e com artes subtis de sedução colocou-o à sua mercê. Só faltava uma coisa: tirar a Rosa do caminho. Eduardo ainda tinha a zumbir no ouvido aquelas palavras que Marina lhe sussurrou em voz açucarada:

- Querido, na tua profissão já conheceste muitos crimes e criminosos?

- Claro. Sou advogado.

- Com esses conhecimentos e um pouco de imaginação eras bem capaz de dar sumiço à chata da tua mulher que impede a nossa felicidade. 

Eduardo ficou horrorizado com a ideia. Odiava a mulher, mas matá-la era algo que nunca lhe tinha passado pela cabeça. O gato mataria de boa vontade. Sempre odiou gatos e quis o destino que a sua mulher morresse de amores por aquele vadio que um dia lhe apareceu à porta. Marina não lhe voltou a falar no assunto mas ideia continuava-lhe a martelar a cabeça. Tanto martelou que, primeiro, já não lhe parecia tão horrível e depois acabou por se tornar numa necessidade. Já não suportava mais a mulher nem aquele estúpido gato ao colo dela. Naquele dia regressou a casa com uma sinistra decisão tomada.

Entrou em casa e o gato veio-se-lhe coçar às pernas. Ele afastou-o com um pontapé – maldito animal – praguejou. Chamou pela mulher.

- Rosa. Onde estás.

- Aqui na varanda.

A voz vinha da varanda da sala. Aquela varanda do sétimo andar onde moravam. Aproximou-se. Ela estava debruçada olhando a rua. Ele não perdeu a oportunidade. Com um espantoso sangue frio agarrou nos tornozelos à mulher levantou-a e o corpo da pobre Rosa projectou-se no espaço embatendo violentamente no asfalto da rua. Sem perda de tempo, foi buscar um pequeno escadote, detergente para limpar vidros, preparou um cenário convincente e chamou uma ambulância. O comissário da polícia tomou conta da ocorrência e acreditou piamente na história que ouviu.

- Quando cheguei a casa falei-lhe e ela respondeu da varanda. Fui ter com ela. Estava em cima daquele escadote a lavar os vidros da porta. Quando se voltou para me falar escorregou e caiu.

Eduardo fechou os olhos em tom de sofrimento e continuou com voz embargada.

- Ainda lhe deitei as mãos aos tornozelos, mas não a consegui segurar. Que a sua alma me perdoe.

- Pois é doutor Eduardo. Essas coisa estão sempre a acontecer. Tem que ter paciência.

O comissário despediu-se apresentando condolências a Eduardo. Este, ao bater a porta, suspirou fundo com um sorriso de cinismo nos lábios.

Três meses depois Marina e Eduardo deram o nó. Tudo corria bem até que chegou aquele dia. Ainda era tempo de lua-de-mel. Estavam os dois amantes mergulhados num banho de espuma. Um leitor de C.D, colocado estrategicamente no bordo da banheira e ligado à corrente eléctrica, debitava baladas românticas. Marina olhou para a porta entreaberta.

- Eduardo! Não sabia que tinhas um gato!

- Eu!? Quem tinha um gato era a minha mulher. Depois da morte dela nunca mais lhe pus a vista em cima.

- Então e aquele?

Eduardo levantou um pouco a cabeça e viu à entrada da porta o maldito gato. O maior alvo do seu ódio. – Onde raio terá andado este nojento durante meses? – Pensou.

- Olha o cabrão do gato! Onde raio andou ele durante este tempo todo? Tenho que lhe fazer o mesmo que fiz à dona.

- Também acho. Uma coisa que eu detesto é gatos.

- Até nisso somos iguais. Deixa lá que eu trato-lhe da saúde.

O gato aproximou-se sorrateiramente da banheira, abanando a cauda.

- Olha Eduardo. Ele até parece gostar de nós.

- È muito atrevido esse reles.

O gato ronronava junto à banheira, mas de repente soltou um arrepiante miado e antes que eles pudessem reagir formou um salto daqueles que só os gatos sabem dar e, com uma certeira patada, atirou com o leitor de C.D para dentro da banheira. Ao entrar em contacto com a água, o aparelho produziu uma poderosa descarga eléctrica que fez estremecer os dois corpos até sucumbirem em espasmos de morte.

A falha de corrente no prédio, devido ao curto-circuito, alertou os vizinhos. Veio o comissário da polícia e tomou conta do sucedido comentando com os mirones:

- Coitado. Ainda há pouco tempo perdeu a mulher num acidente e agora, que estava a refazer a vida, acontece isto por falta de cuidado estas coisas estão sempre a acontecer. 

 

---///---

 

O gato anda agora à solta nas ruas da sua terra. Procura novos casos em que seja preciso repor a justiça. Ele pode estar em qualquer parte. Porte-se bem.               

   

 

 

Fim

Vitor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:54
link do post | comentar | favorito

CONTO IV - O BAILE

Dançar é bom. Faz bem ao corpo e ao espirito. Mais agradável se torna quando se tem uma parceira atraente. Mesmo quando entre nós e ela existe o maior dos abismos.

 

O BAILE

 

 

Quando Carlos entrou, o baile estava animado. O conjunto atacava as notas das músicas mais em voga. Os rapazes dirigiam-se ás raparigas pedindo a honra de uma dança. Alguns, entre sorrisos, tinham a sorte do “sim”, outros levavam um “não” e viravam costas tristonhos acabando por procurar refugio e consolo num copo de cerveja. Carlos era fraco dançarino, um autêntico pé de chumbo, por isso limitou-se a observar o ambiente. Depressa se aborreceu e decidiu ir até ao bar que ficava por cima do salão.

No bar a azafama era grande. Torrentes de cerveja corriam pelo balcão até ás gargantas sequiosas da juventude. O pessoal do bar andava num rodopio. Gritavam ordens para a cozinha e logo surgiam bifanas, cachorros e outras iguarias destinadas a empalhar tanto liquido. Carlos encostou-se ao balcão e esperou pacientemente que lhe servissem um fino. Ia a meio do copo quando uma voz lhe sussurrou ao ouvido.

- O senhor dá-me lume?

Carlos voltou-se e não pôde evitar uma expressão de assombro enquanto um arrepio lhe percorria o corpo. À sua frente estava a mulher mais bela que Carlos já alguma vez tinha visto. Altas sobrancelhas encimavam uns expressivos olhos meigos cor de mel. Um nariz bem desenhado e ligeiramente arrebitado e uns lábios sensuais entreabertos davam-lhe um impar encanto. O cabelo longo e negro contrastava com a alvura da pele. Usava um vestido de fino tecido negro que realçava as suas suaves formas femininas.

Carlos, tremulo, tirou o isqueiro do bolso e acendeu o cigarro à jovem. Esta agradeceu e sorriu. Todo o universo sorriu também. Carlos não podia deixa-la ir embora. Ganhou coragem e fez-lhe um trivial convite.

- Quer tomar alguma coisa? Como vê estou só.

- Também estou só. Mas não costumo beber.

- Beba um sumo.

- Não. Hoje vou experimentar cerveja. 

Carlos pediu dois finos e foram-se sentar na mesa do canto por ser o local mais sossegado.

- Já lhe tinham dito que é muito linda?

- Obrigado. Raramente ouço isso.

- Não acredito. Não tem namorado?

- Não.

- É você que não quer ou são os homens que andam cegos?

Ela riu divertida. Ele continuou.

- Ainda nem sei o seu nome e já estou aqui a fazer perguntas.

- Adelaide. E você?

- Carlos. Agora que estão feitas as apresentações podemos deixar o “você” de parte?

- Está bem. Se você assim quer.

- Diz.

- Se tu assim queres.

- Agora ouvi.

Continuaram assim a tagarelar sobre assuntos sem importância. Carlos estava alucinado com a beleza e a simpatia de Adelaide. Ela escutava-o com toda a atenção e nos seus lábios pairava sempre um angélico sorriso. Do salão de baile chegavam os sons da música. O baile continuava bem vivo. Quando o conjunto mudou de tema, Adelaide exclamou.

- Apetece-me dançar. Estão a tocar música dos anos sessenta.

- Agrada-te essa música velhinha?

- Sim, principalmente esta que é dos Rolling Stones.

- Esse continuam bons.

- Continuam!? Ainda existem!?

- Claro. Não vês as notícias? Ainda há pouco tempo deram um super concerto em Coimbra.

- Os Stones ainda existem! Ando desactualizada. Vamos lá dançar?

Carlos, apesar das suas limitações no campo da dança não podia dizer que não. Quem pode dizer que não a uma mulher que nos encanta?

- Vamos.

Desceram ao salão. Iniciaram a dança. Carlos fazia o que podia para se manter no ritmo. Adelaide, pelo contrário era uma exímia bailarina. Carlos não se importava com a falta de jeito. Estava orgulhoso por ter como par a mais bela mulher daquele baile. Mais tarde voltaram ao bar. Adelaide começava a ficar apreensiva.

- Que tens linda? Estás tão calada.

- É que... tenho que ir embora.

- Já!? Ainda nem é meia-noite.

- Pois é. Mas os meus pais são muito conservadores e querem-me em casa antes da meia-noite.

- Está bem. Não quero que tenhas problemas. Eu levo-te a casa.

- Não te incomodes. É perto. Vou bem sozinha.

- Está a começar de chover. Eu levo-te.

- Está bem. Já vi que és teimoso.

Saíram do edifício. Começava a cair uma chuva miudinha. Carlos pôs a mão no ombro da rapariga e estremeceu. A sua pele era fria, gelada mesmo. Era como se... Se estivesse morta. Correram para o carro. Carlos conduziu seguindo as indicações dela até que chegados a certo ponto ela tocou-lhe no braço.

- Pára aqui. A minha casa é aquela.

- Aquela, alem, ao pé do cemitério?

- Sim. Saio aqui.

- Levo-te á porta.

- Não. Como já te disse, os meus pais são à moda antiga. Não quero que te vejam.

- Pronto, está bem. Quando te volto a ver?

- Vem cá para a semana.

Adelaide ia já a sair.

- Ei. Não mereço um beijo?

Ela colocou-lhe um beijo no rosto e ele notou mais uma vez o toque gelado da sua pele.

- Espera. Leva o meu guarda-chuva

- Não é preciso.

- Leva, depois dás-mo para a semana.

- Está bem, aceito. Agora vai embora.

Ela saiu do carro, abriu o guarda-chuva e começou a andar. Carlos ficou ali parado observando a elegância do seu passo e a forma graciosa como pegava no guarda-chuva. Preparava-se já para fazer a inversão de marcha quando, ao deitar um ultimo olhar a Adelaide ficou petrificado. Ela, em vez de se dirigir à casinha que dizia ser a sua, entrou no cemitério.

– Que vai ela ali fazer a esta hora!? Irá à sepultura de algum familiar? Mas a esta hora!? Rapariga corajosa. Tenho que ir ver.

Carlos pegou numa lanterna e dirigiu-se ao cemitério. Entrou e chamou por Adelaide. Não obteve resposta. Andou mais uns passos e voltou a chamar. O silêncio imperava naquele local tenebroso e sagrado. Iluminou o espaço à sua volta. Algo lhe chamou a atenção. O seu guarda-chuva estava pendurado na cruz de uma sepultura, mas o que viu a seguir gelou-lhe o sangue nas veias e não pôde evitar um grito de horror. Na lápide dessa sepultura podia ler-se claramente:

 

AQUI JAZ

ADELAIDE FERNANDES

N: 03-10-1948

F: 29-04-1973

ETERNO DESCANSO

FIM

                                                                 Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:53
link do post | comentar | favorito

CONTO III - BOM DIA SENHOR BARROSO

Na próxima vez que cumprimentar o seu vizinho, nem que seja com um simples “Olá” certifique-se sempre se é correspondido nesse seu gesto cívico. 

 

BOM DIA SENHOR BARROSO

 

 

- Bom dia senhor Barroso.

            - Bom dia meninos. Não se atrasem e tenham cuidado com os carros.

            Era assim todos os dias. O pequeno João e a e pequena Carla tinham que passar naquela rua estreita a caminho da escola. Sensivelmente a meio desta ruela, estava o senhor Barroso sentado à janela do rés-do-chão que habitava há oitenta e dois anos. Era um homem enérgico. Apesar da idade mantinha ainda uma farta cabeleira grisalha. Um farfalhudo bigode dava-lhe um tom ainda mais austero, mas a brandura das suas palavras e os seus modos corteses amenizavam o seu aspecto.    

Filho único de uma humilde família tinha ficado órfão muito cedo. Ainda adolescente trabalhou como aprendiz de sapateiro. Depois do serviço militar aprendeu a arte de alfaiate e mais tarde abriu uma pequena loja de chapéus. Costumava dizer, com alguma graça, que a sua vida profissional tinha começado pelos pés para acabar na cabeça.

Enquanto jovem fora bastante namoradeiro, mas, por opção de vida, ficou solteiro. Após a reforma dedicou-se à mais completa inactividade. Enquanto as pernas ainda o ajudavam passava os dias na tasca da dona Lúcia comendo uns joaquinzinhos regados com o tinto cascarrão. Com o passar dos anos, o reumatismo tomou-lhe conta das pernas de tal forma que agora passava os dias à janela observando a labuta estonteante da cidade.

- Bom dia senhor Barroso.

Agora era a dona Isabel: a alcoviteira do bairro.

- Bom dia Isabel.

- Já sabe da novidade? A minha vizinha Eugenia tinha um amante.

- O quê!? Aquele camafeu!?  

- È verdade. O marido descobriu tudo a arriou-lhe até não poder mais. Deixou-a toda negra. Até já se fala em divórcio.

- Ele também só quer é vinho.

- Olhe senhor Barroso, é uma pouca-vergonha. Vou contar ali à Gina que ainda não deve saber de nada.

Gina era a dona da mercearia logo ali em frente. O senhor Barroso observava agora as duas mulheres. Enquanto uma gesticulava, a outra fazia cara de pasmo no meio dos caixotes da fruta expostos no passeio.

- Bons dias Barroso.

- Bom dia Joaquim. Que andas tu a fazer?

Joaquim e Barroso foram companheiros na tropa.

- Vou até à taberna. Não se pode estar sempre em casa. Anda daí também. Passas os dias à janela. Olha que te faz bem andar.

- Não posso. Até para vir da cama para aqui foram os trinta infernos.

- Pronto. Não te posso obrigar. Então até logo.

- Até logo Joaquim.

Joaquim afastou-se coxeando devido à gota que lhe atacava as articulações.

- È ti Barroso. Você agora está aí bem. Bate-lhe aí o sol.

- Pois é Gina. Então como é que vai o negócio?

- De mal a pior. As pessoas agora só vão aos hipermercados. Só se lembram de mim quando não há dinheiro, quando vêm ao fiado.

- Pois é Gina. Nos hipermercados há tudo menos livro de fiados.

Assim se passavam os dias. À hora de almoço desaparecia por meia hora para ir comer sabe deus o quê. Quando principiava a anoitecer recolhia-se fechando com estrondo a pesada janela de madeira para regressar no dia seguinte.

Um dia o senhor Barroso madrugou mais que o costume. A dona Gina reparou nisso. Quando abriu a mercearia já lá estava ele espreitando o mundo da sua janela.

- È ti Barroso anda muito madrugador.

Ele não respondeu e ela continuou a montagem da sua exposição de vegetais diversos. Pouco depois saltitava pela rua o pequeno João com a pequena Carla de mão dada.

- Bom dia senhor Barroso.

Continuaram a corrida saltitante e, só ao dobrar da esquina, é que Carla se lembrou.

- O velho não nos respondeu.

- Pois não. Se calhar estava a dormir.

Mais um dia chegou ao fim e mais outro dia começou. O Senhor Barroso continuava madrugador. Gina morava por cima da mercearia. Mal se levantou veio à janela e já lá estava ele plantado olhando a rua. Veio abrir a porta para os clientes mais matutinos.

- Bom dia senhor Barroso. Com a sua idade ainda estava bem era na cama.

Ele não respondeu. Gina foi à sua lide. – O velho estará surdo ou zangado comigo? – Pensou.

A dona Isabel vinha apressada pela rua abaixo. Levantou a mão ao senhor Barroso.

- Ò senhor Barroso, vou ali à Gina e já lhe falo. Nem queira saber o que aconteceu.

Entrou de rompante na mercearia.

- Ò Gina sabes da última? A filha da Alexandrina desapareceu há duas noites. A última vez que a viram foi com o namorado. Aquilo fugiram os dois. Que grande pouca-vergonha. Anda uma mãe a criar uma filha para isto. Eu tenho lá duas, deus mas guarde de tal sorte. Também metia-me num poço.

- Isabel. Eu não quero saber de nada disso. A minha vida chega-me bem.

- Está bem, está bem. Vou contar ao velho Barroso.

- Se fosse a ti não ia. O velho anda casmurro como o caraças. Nem a salvação dá a ninguém.

- Ai ele é isso? Então nem lhe digo nada.

Pouco depois passavam as duas crianças.

- Bom dia senhor Barroso.

Mais uma vez não obtiveram resposta.

- Ò João. O velho não disse nada!

- Eu reparei. Amanhã também não damos os bons dias.

Mais um dia chegou ao fim e mais outro dia começou. Gina iniciou a sua rotina. Olhou de esguelha para o velho Barroso. Lá estava ele imóvel e observador. Isabel chegou com as ultimas novidades acerca dum rapazola que bateu no avô. Precisamente no velho colega de tropa do senhor Barroso: o Joaquim.

- Ò Gina. Coitado do homem. Todo lavadinho em sangue. Parecia um cristo. Deus não dará um castigo a estes valdevinos!?

Pouco depois vinham as duas crianças, no seu caminho habitual, entoando uma qualquer cantilena. Ao chegarem perto da janela do senhor Barroso, calaram-se e passaram a direito.

Filipe, o carteiro, desmontava ainda da bicicleta e já acenava com um envelope ao senhor Barroso.

- É senhor Barroso. Aqui vem a cartita do costume: a sua reforma. Não se atrasaram nada.

Aproximou-se.

- Aqui tem. Deus queira que a gaste com saúde.

O homem continuava silencioso. O carteiro Filipe tocou-lhe no braço e a cabeça do ancião tombou em frente. Puxou pelo telemóvel, ligou para a polícia e chamou uma ambulância.

 

---///---

 

O relatório da autópsia revelava morte por acidente vascular cerebral, ocorrida sensivelmente oitenta horas antes da descoberta do corpo.

 

Fim

                                                                  Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:50
link do post | comentar | favorito

CONTO II - REENCONTRO

A vida dá muita volta. Muitas vezes desejamos reviver o passado, mas por vezes esse passado saudoso traz-nos amargos sentimentos ao presente.

 

REENCONTRO

 

 

Era Domingo. Um daqueles Domingos radiantes e solarengos típicos de Abril. Após um sumptuoso almoço e um curto passeio, sentei-me na esplanada do café Central. Pedi uma bica à desenvolta e petulante empregada e dediquei-me, indolentemente, a observar os restantes clientes.

            Um casal de velhotes, na mesa ao lado, desfiava o jornal tecendo comentários de assombro sobre notícias de um mundo que corre veloz. Tão veloz que ambos se sentem parados num tempo que já não existe, nem existirá jamais. Imagino-me, quarenta anos mais velho, analisando um jornal em formato digital e lendo notícias de viagens espaciais, humanos modificados geneticamente e casas inteligentes: Aquelas casas que encomendam o papel higiénico via Internet muito antes de cairmos naquela situação abrolhosa e ridícula em que se está sentado, aliviado e sem nada macio e absorvente por perto. Nessa altura, certamente que também ficarei com cara de Rantanplan a olhar para o jornal como aquele simpático casal.

            Havia apenas mais um indivíduo de meia-idade, gordo e vermelho que emborcava cerveja em doses industriais enquanto coçava uma proeminente barriga que anunciava algo de mau lá para os lados do fígado. Completava o conjunto uma senhora que banhava de beijos um cãozinho peludo. Cheguei a ter dó do pobre canídeo que gania maldizendo a sua sorte de vira-lata transformado em cão de luxo.

      Um miúdo e uma miúda aproximam-se de mão dada. Não devem ter mais de catorze anos, mas vêm de mão dada como que a mostrar ao mundo que já não são putos e estão prontos a enfrentar a vida com todos os atravancamentos que eles nem imaginam que existem. Sou forçado a esboçar um sorriso dissimulado entre dois goles de café. Ele de t-shirt com desenhos “tribais”, calças de ganga largas e exibindo uma popa, de fazer inveja ao Tintim, que lhe deve ter custado horas de espelho. Ela de calças pretas pelo tornozelo e t-shirt curta deixando ver um umbigo adornado por um piercing. A fita roxa que lhe ata a cabeça contrasta com os seus cabelos louros. Enfim, um mimoso par de pombinhos.

            Sentaram-se na mesa em frente e pediram Coca-Cola. Seria de esperar. Estes miúdos são loucos por essa mixórdia americana. Enquanto sugam o misterioso líquido por uma palhinha olham-se nos olhos. Há muita ternura naqueles jovens corações que despertam para o amor. Será que também fui assim? Um esforço de memória leva-me à verdura dos meus quinze anos e à recordação da primeira namorada. Chamava-se Mónica. A primeira que vez que sorriu para mim ia tendo um colapso cardíaco. Nessa noite não preguei olho. Quando aceitou o meu tímido pedido de namoro senti-me a alma mais feliz do mundo. Nesse tempo ainda se pedia namoro e namorava-se. Hoje “engata-se” e “anda-se com”. Mas o amor, até mesmo adulto, é efémero, quanto mais na inconstância da adolescência. Quis o destino que a menina Mónica, um mês depois, apenas um mês, baqueasse nos encantos de um jogador de futebol vindo da África do Sul. Fiquei destroçado. Pensei que morria, que nunca mais passaria de uma alma penada e abandonada ao total desprezo. Num momento de lucidez, juntei as fotos, as cartas de amor, os papelinhos passados a meio da aula, as juras de amor eterno rabiscadas em pacotes de açúcar e atirei com tudo para a lareira. Passados estes vinte e cinco anos considero ridículo o meu comportamento desse tempo. Um homem apaixonado é sempre ridículo, mas mais ridículo é aquele que nunca o foi.

Há vinte e cinco anos que não vejo a Mónica. Que será feito dela? Terá casado? Terá filhos? Estará bem na vida? Estes e outros pensamentos abrem a vontade de passear pela cidade. Chamo a empregada. Pago e deixo uma pequena gorjeta que ela agradece com um olhar cintilante e um sorriso surpreendente. A catraia é gira. Levanto-me e enfronho-me na cidade. Só agora reparo que tenho uma nódoa de café na camisa. Acontece-me sempre isto. Caminho sem destino observando as montras indiferente ás suas decorações alusivas á Páscoa que se aproxima. Todas as datas importantes servem para vender. Quando não há natais nem páscoas inventam-se dias do pai, da mãe, dos namorados, etc. Até onde nos levará esta sociedade consumista? Porque raio me havia de lembrar da Mónica? Fiquei mal disposto com estas recordações. Aqueles miúdos reacenderam um fogo há muito extinto.

            Sigo por uma rua de má fama e pouco movimento. De uma tasca saem berros de discórdia. O vinho já está a fazer das suas a esta hora da tarde!? Aqui e além vêem-se prostitutas de olhar deserto, mente deserta, vida deserta. Esta rua não me agrada. Está cheia de chagas sociais. Aquelas chagas que os nossos governantes deviam ver nas campanhas eleitorais em vez de irem dar beijinhos e promessas milagrosas ás ingénuas vendedoras de peixe na praça da ribeira. O que certos ministros precisavam era com um cherne no focinho e um espadarte pelo cu acima.

            Ao virar da esquina sou acercado por uma mulher cujo parco vestuário demostrava a sua actividade.

            - Procuras prazer? Estou disponível.

            Quando sou assim assediado sinto sempre um misto de ódio e compaixão por estas mulheres que caíram no mais baixo que se pode cair em termos de dignidade humana. Normalmente sigo o meu caminho ouvindo um qualquer insulto à minha masculinidade. Esta despertou-me a atenção. Havia algo de familiar naquela filha de um deus menor. Fixei os meus olhos nos dela e um frémito de horror apunhalou-me a alma. À minha frente estava Mónica oferecendo-me, a troco de alguns Euros, algo que eu desejei com loucura na verdura da minha mocidade, Ainda pensei que os meus sentidos estivessem a ser enganados por pensamentos recentes, mas não. Lá estava o mesmo olhar, o mesmo sorriso, o mesmo nariz empinado, o mesmo sinal junto ao lábio superior. Só o ar juvenil de outros tempos é que se tinha transformado num ridículo jeito de mulher fatal a condizer com o ridículo decote da blusa, a ridícula mini-saia de cabedal, as ridículas meias de rede e as ridículas botas de canhão comprido. Eu estava bastante mudado pelo atrito dos anos e de uma vida desregrada, por isso não me reconheceu. Decidi avançar com uma pergunta que nunca tinha feito:

            - Quanto queres?

            - Cinquenta Euros, tratamento completo.

            Puxei por uma nota de cinquenta, deixei-lha cair aos pés e segui o meu caminho.              

                       

 

Fim

Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:48
link do post | comentar | favorito

CONTO I - HÁ UMA ESTRELA AO LADO DA LUA

Há quem acredite piamente no destino. Também diz o povo que “ovelha que há-de ser de lobo ninguém lha vai tirar”. Certo é que o amor tem muita força e com ou sem destino a comandar, a vida é cheia de coincidências. 

 

HÁ UMA ESTRELA AO LADO DA LUA

 

 

- Para quem estás a ligar? Para aquele pícaro?

- Já acabei. Era uma amiga.

- Malditos telemóveis.

A porta do quarto fechou-se com estrondo.

Andreia estava estendida na cama procurando outro número na extensa lista do seu telemóvel. Encontrou, marcou, esperou uns poucos segundos.

- Está? Ricardo? Sabes que nome a minha mãe te deu ainda agora?

- Qual?

- Pícaro!

- O que é um pícaro?

- Espera... estou a ver no dicionário... cá está. Pícaro: ardiloso, astuto, burlesco, esperto.

- Os teus pais nunca me vão aceitar.

- É só a minha mãe, mas tem paciência. Com o tempo tudo vai correr bem.

- O meu pai também me anda a chatear, mas acabo por o convencer.

- Francamente não entendo. A minha mãe só te viu uma vez, o teu pai nem me conhece. Que raio vêm eles de errado? Será por sermos novos?

- Pelo menos temos uma aliada. A minha mãe diz que tu és muito linda. E tem razão.

- Bigado pelo elogio. O meu pai também nos defende, mas sabes que a opinião dele aqui não conta. Está um desgraçado feito. Se algum dia fores como ele, ponho-te as malas à porta.

Ricardo apenas respondeu com um profundo suspiro.

- Não dizes nada!?

- Estava a pensar se algum dia teremos porta para tu lá pores as malas ou para que dela para dentro seja o nosso ninho.

A conversa continuou embebida na juventude de ambos até que a porta se voltou a abrir e Alice entrou com modos coléricos 

- Tu para-me já com a porcaria da conversa com esse bandido.

- Não me diga que estava à escuta atras da porta!? Será que não tenho direito a privacidade?

 Alice estava visivelmente irritada. Mais ficou com as palavras da sua única filha.

- Tens direito a tudo quando pagares as tuas contas, incluindo o telemóvel. Por isso estuda em vez de dares trela a esse cão de água. Uma pirralha de quinze anos já quer namorar?

- Você nem o conhece.

- Conheço muito bem, tanto ele como a tralha da família que tem.

- Ah. Então é isso. O problema é ele ser pobre.

- Não é a pobreza que me incomoda. Tu também não és rica. É ele ser filho de... de um canalha.

- Olhe, não conheço o pai, mas também não pretendo namorar com ele. O que está em causa é que o filho é uma jóia de rapaz.

- Filho de burro não pode sair cavalo. Se o pai é uma besta o filho não vai ser melhor. Por isso é melhor acabares com esse conto de fadas.

- Só gostava de saber o que é que ele ou o pai dele fizeram para você os odiar dessa maneira.

- Tenho muitas e boas razões, mas não são coisas que se contem a uma fedelha. Eu da tua idade ainda brincava com bonecas.

- Isso diz você e dizem todas. No seu tempo havia muito mais coisas que agora só que era tudo feito com hipocrisia.

Andreia estava sentada na cama de testa franzida. Alice nunca tinha visto a filha assim tão furiosa. Por isso resolveu apaziguar os ânimos e sentou-se junto a ela falando com brandura.

- Filha. És muito jovem e fácil de iludir. Há tantos rapazes a suspirar por ti que não devias envolver-te tanto com o primeiro que te aparece.

- E se andasse com outro, a mãe já aceitava? Mesmo sendo nova?

- Talvez. O Eduardinho, por exemplo é uma estampa de rapaz, educado, respeitador...

- E rico. Não é mãe? Você quer é um genro rico. Os meus sentimentos que se lixem.

Alice levantou-se de rompante voltando ao tom severo.

- Acabou-se. Não se pode falar contigo. Tu ainda não tens querer e por isso trata de despedir o teu príncipe pé descalço, herdeiro de má catadura, antes que seja eu a reduzi-lo à sua insignificância.  

 Retirou-se batendo com a porta. Andreia ainda teve tempo de ver uma lagrima fortuita no rosto da mãe.

Andreia estendeu-se na cama. Tica, a gata, veio aninhar-se junto dela ronronando baixinho.

- Pois é Tica. És a única que me compreende. Que raio de implicância com o Ricardo. Qualquer dia desapareço daqui para fora.

Tica respondeu com um miado fininho.

Andreia estava prestes a fazer desaseis anos. Tinha a frescura natural da adolescência. O cabelo negro e liso caia-lhe sobre olhos dando uma graça peculiar à testa alta reveladora de inteligência. O nariz empinado aliado aquele sorriso safado dava-lhe um ar atrevido e encantador. O corpo, apesar da tenra idade, revelava já as formas de uma bela mulher a desabrochar. Vestia, quase sempre, de uma forma simples e desportiva. Jeans e t-shirt eram o seu conjunto mais habitual. Alguns acessórios como cintos, lenços e bijutaria adornavam graciosamente a sua airosa figura.

Ricardo Vivia numa aldeia próxima e era seu colega de turma, embora fosse dois anos mais velho devido a dois chumbos de má memória. Logo à primeira vista sentiram uma intensa atracção um pelo outro. Do simples meter conversa ao namoro firme foi um passo de perdigoto. Menos de uma semana foi quanto Ricardo precisou para encantar Andreia. Era um rapaz robusto e musculoso, o cabelo negro e as feições másculas contrastavam com o seu permanente sorriso quase infantil. Andreia deu o “sim” definitivo quando ele lhe ofereceu um passarinho em porcelana e lhe disse que só queria deixar de estar ao lado dela quando aquele passarinho voasse.

- Os pássaros de porcelana não voam.

Disse ela sorrindo como que adivinhando uma resposta.

- Por isso mesmo. Temos a vida toda.

  Não contavam era com a oposição acérrima da mãe dela e do pai dele. Coisa estranha ainda mais que a mãe dele até achava um par giro e o pai dela estava-se simplesmente nas tintas para os namoricos da filha, pelo menos, enquanto houvesse tremoços, caracóis e cerveja a rodos no bar “Flor Da Serra”, onde passava as tardes. Sempre fora dado à boémia, mas piorara após a precoce reforma dos caminhos-de-ferro devido a um acidente que lhe inutilizara um braço.

Alice sentou-se na varanda olhando a faina laboriosa da aldeia enquanto velhos e dolorosos pensamentos lhe atravessavam a mente.

Quem conhecesse o passado não estranharia aquela aversão a este namoro. Alice nunca se intrometeu na vida da filha, mas agora era diferente. Quis o destino, sempre caprichoso, que a sua filha visse com outros olhos o filho de Arnaldo. Precisamente o homem com quem esteve para casar há vinte anos atrás. Alice e Arnaldo mal começaram a namorar já o pai dela ameaçava deserda-la. Provinha de uma família tradicionalmente rica, mas, como tantas outras, estava agora em profunda decadência. Ainda assim era preciso salvar as aparências. Não ia a sua filha casar com o filho do cantoneiro. Arnaldo, revoltado com estas injustiças, partiu de assalto para frança, jurando arranjar um pé-de-meia capaz de satisfazer o pai de Alice. Quando voltou era tarde, tão tarde que encontrou a sua amada casada com um sujeito rude, mas herdeiro de umas terras consideradas valiosas. Alice nunca lhe perdoou por ele ter ido embora e Arnaldo ficou cego de raiva por ela não ter esperado.

Os pensamentos de Alice coincidiam com os de alguém que estava cinco quilómetros mais para oeste numa povoação vizinha. Arnaldo, sentado numa esplanada, recordava tempos felizes passados com Alice. Veio-lhe à lembrança aquela noite junto à fonte. Alice olhava o céu. Estava deslumbrada com a enorme lua cheia que iluminava a noite.

- Olha que giro!

- O quê?

- Aquela estrelinha pertinho da lua!

- A lua é nossa cúmplice e aquela estrela representa o nosso futuro.

Afinal tornou-se estrela de mau agouro, pensava agora Arnaldo. Decidiu afastar aqueles pensamentos que lhe martirizavam a alma quando o filho chegou.

- O pai paga uma jola?

- Pago porque, até preciso falar contigo.

Arnaldo e o filho entraram no velho café “Passarinho”, único na aldeia. Pediram cerveja e sentaram-se na mesa do canto.

- Tu andas mesmo a namorar aquela... aquela rapariga.

- A Andreia? Andamos.

- E isso é serio ou é só no gozo?

- Serio, tão serio que farei dela minha mulher e mãe dos meus filhos.

- Estás a errar. Aquilo não é flor que se cheire. Alem disso são muito novos.

- Somos novos mas também não nos vamos casar já. Devemos tirar um curso primeiro.

- Não te posso impedir, mas se ela é da laia da mãe, tens muito que sofrer.

- Que raio de implicância tem você com a mãe dela e ela consigo?

- Não é da tua conta.

- Rica resposta. É com essa que o pai arruma todas as questões. Se há coisas relacionadas com o meu namoro que só são da sua conta porque quis falar comigo sobre isso?

- Não ias entender. É uma longa história.

- Conte lá a sua história. Ou sou assim tão burro que não possa entender seja lá o que for?

- Não é coisa que se conte aqui no café, mas quando souberes vais entender muita coisa.

- Então quando quiser explicar porque é que o pai odeia uma miúda adorável e é avesso à respectiva mãe eu estou pronto para o ouvir, mas haja o que houver eu não vou largar a Andreia.

Ricardo retirou-se e o pai ficou a meditar no assunto. Não queria magoar o filho, mas tinha que arranjar meios para acabar com aquela paixão que abria velhas feridas.

O tempo foi passando e chegaram as ferias de verão. Ricardo, agora, pouco via Andreia. Passavam horas ao telemóvel fazendo juras de amor eterno. Um dia o silêncio instalou-se da parte de Andreia. Nem chamadas, nem toques, nem mensagens. Ricardo tentava ligar mas o telemóvel dela estava sempre desligado. Que se passaria? Ele pensava se teria feito algo que a magoasse, mas não se lembrava de nada. Teria encontrado outro que o fizesse esquecer assim tão depressa? Ricardo passou dias negros e noites em branco. Assim passou uma semana até que o telemóvel de Ricardo tocou. Ele atendeu com voz trémula e coração agitado.

- Andreia! Até que enfim. Que se tem passado?

- Nem imaginas. Vou ser rápida que estou a falar ás escondidas. A minha mãe bateu-me sem dó nem piedade. Estou toda dorida. Tirou-me o telemóvel e não me deixa sair de casa. Não aguento mais isto.

Ricardo, pela voz combalida, adivinhava as lagrimas no rosto de Andreia.

- Por nossa causa!? Olha tens que ter paciência. O meu pai também me lixa a toda a hora.

- Não tenho paciência nenhuma. Estou farta de atitudes medievais. Vou fugir para longe. Depois mando noticias.

- Espera. Se queres fazer uma loucura, fazemo-la juntos.

 

Arnaldo entrou no posto da G.N.R visivelmente perturbado. Um jovem soldado dispôs-se a atende-lo.

- Diga senhor.

- Quero participar que o meu filho desapareceu.

- Outro!

- Outro porquê?

- Está aí dentro uma senhora a queixar-se do desaparecimento da filha.

Arnaldo estremeceu. Tudo se clareou na sua mente. Adivinhava já quem seria a queixosa.

- Senhor guarda tenho bons motivos para suspeitar que o meu caso está relacionado com esse outro caso. Posso saber quem é a mãe da rapariga?

- Espere um segundo.

O guarda bateu à porta do gabinete.

- Meu sargento. Está aqui um senhor a queixar-se do desaparecimento do filho. Ele acha que pode haver relação.

- Mande entrar.

Arnaldo entrou. O sargento encontrava-se atras de uma pesada e desarrumada secretária. Em frente, uma mulher chorava copiosamente.

- Bom dia sargento. Olá Alice. 

- Cala-te desgraçado. Foi o teu filho que desgraçou a minha filha.

- Olha o meu filho também desapareceu.

- Pois, fugiu de ti que és um miserável e arrastou a minha filha com ele.

- Sim? Ou terá sido a tua filhinha que virou a cabeça ao rapaz?

O sargento maldizia a sua sorte. Era sempre assim. Os nossos filhos eram sempre bons. Os outros é que os desgraçavam. Deu um soco na secretária fazendo voar vários papéis.

- Os senhores fazem o favor de se acalmar e contar o que se passa?

Enquanto Alice caía de novo num mar de lagrimas, Arnaldo esclareceu o melhor que pôde o sargento da guarda. Este tirou vários apontamentos, meditou um pouco e, depois de passar as mãos pelo rosto como querendo apagar os olhos, nariz e boca concluiu.

- Então é assim: o seu filho namorava com a filha desta senhora contra a vossa vontade. A senhora pôs a filha de castigo. A última chamada registada no telemóvel desta senhora era para o seu filho. Portanto, ouve comunicação entre ambos. No dia seguinte desapareceram os dois. Tem toda a razão. Onde está um deve estar o outro.

Alice irrompeu em raiva.

- Pois. Foi o filho deste canalha que a raptou.

- Olha. Foi ela que telefonou ao meu. Pelos vistos, deu-lhe a volta bem dada.

- Os senhores fazem o favor de se calarem e irem para casa? Nós vamos investigar e daremos informações logo que as haja.

Saíram ambos cabisbaixos. O sargento efectuou alguns telefonemas para todos os quartéis da região. As fotos dos dois jovens foram passadas por fax.

Alice começava a ficar arrependida por ser tão dura com a filha. O marido recriminava-a por isso. – Porque não deixas a miúda em paz? Não vês que são namoricos de garotada? Dizia ele quando a via a engendrar castigos. – Agora tens o resultado das tuas paranóias. Mas ele nada sabia do passado de Alice. Como poderia ela ver a sua filha ligada com o filho do homem que a abandonou há vinte anos?

Arnaldo também pensava no filho enquanto consolava a inconsolável esposa. Sentia remorsos por algumas vezes ter azucrinado a cabeça ao rapaz e, secretamente sentia algum orgulho pela atitude do filho.

Ao fim de sete dias, o sargento da G.N.R. apareceu em casa de Arnaldo. Desceu do todo terreno e encaminhou-se para ele com o seu passo militarista.

- Amigo, trago boas noticias. Penso que já localizamos os pombinhos.

Arnaldo não gostou da expressão “pombinhos”, mas a ânsia de novas sobre o seu filho fê-lo esquecer.

- Então? Diga. Estou pronto para tudo.

- Tal como desconfiamos, estão juntos a viver numa cabana junto à praia de Buarcos.

- Buarcos!? Como descobriram?

- Relativamente simples. Eles não foram muito espertos. Acho até que só quiseram pregar um susto. Como sabe, neste tempo há muita gente daqui a passar ferias na Figueira e em Buarcos. Foram mesmo pessoas minhas conhecidas que, sabendo da busca, os viram a fazer compras num supermercado e me comunicaram. Depois, as autoridades de lá depressa localizaram uma cabana meia escondida num antigo parque de campismo.

- A... a outra já sabe?

- A mãe dela? Sim, está no posto à nossa espera. Você vem?

- Claro.

            Alice estava à porta do posto da G.N.R. quando Arnaldo chegou. Ele disse bom dia mas ela não respondeu. Seguiram em direcção à Figueira da Foz com o sargento e um soldado. O sargento fez questão de ser ele próprio a conduzir. No banco detrás Alice e Arnaldo, absortos nos seus pensamentos, não disseram uma palavra até uma boa meia hora de viagem. A certo ponto, Arnaldo decidiu quebrar o gelo.

- Alice.

Ela estremeceu com a forma como ele prenunciou o seu nome. Parecia uma súplica.

- Sim! Falou comigo?

- Acho que, até recuperarmos os nosso filhos, devíamos pôr de parte tudo aquilo que nos separa.

Ela ficou um pouco pensativa, respirou fundo e respondeu.

- Está bem, Até termos aqueles mariolas outra vez em casa, vamos esquecer certas coisas.

- Coisas que até já deviam estar esquecidas. Já lá vão vinte anos.

- Por favor. Não quero falar... disso. Limitamo-nos a tratar deste assunto que nos afecta aos dois e nada mais. Certo?

- Ok.

O sargento olhou para ambos pelo retrovisor. Era um homem habituado a lidar com muita gente, conhecia bem o género humano. Este pequeno dialogo deu para que ele percebesse o que se passava entre ambos.

Atravessaram a cidade da Figueira. Em Buarcos, junto à muralha, um agente da P.S.P esperava-os. Foi ele que os levou até um local despovoado entre Buarcos e Quiaios. Saíram do carro e deslocaram-se a pé até uma moita. Lá estava a cabana construída com desperdícios de chapa e madeira. Arnaldo e Alice já iam a correr para lá, mas o sargento deteve-os.

- Tenham calma. Chamamos primeiro.

Não foi preciso. Os dois jovens apareceram à porta de mão dada. Olharam aquele grupo com altivez. Era a hora de enfrentar tudo e todos. Era hora de mostrar que tinham tomado uma decisão inabalável.

Alice, cega de raiva, correu para eles.

- Minha cabra que te mato.

- Espera Alice.

Arnaldo alcançou-a e segurou-a pela cintura. Ela parou atordoada por aquele abraço enérgico.

- Que ias fazer?

- Partir a cara aquela reles que se diz minha filha.

- Porquê?

- Porquê!? Perguntas porquê!? Que dizer que aprovas aquilo que eles fizeram!?

- Alice. Acalma-te e olha bem para eles.

Alice, mais calma, contemplou os dois jovens que, entretanto, se tinham abraçado. A sua filha já não era mais uma menina e aquele jovem esbelto protegia-a naquele ermo. O seu pensamento voou para outros tempos. Para os verdes anos da sua adolescência. Quantas vezes tinha sonhado com aquela clássica imagem de um amor e uma cabana, Ao lado daquele homem que ainda a segurava virilmente pela cintura?

Voltou-se para Arnaldo. Seus olhares encontraram-se já sem aquela aversão que ambos alimentaram durante anos.

A voz de Alice saiu como um sussurro semelhante ao da brisa fresca que lhe varria o rosto.   

- Que queres que veja?

- Olha bem. Nós também já passamos por isto. Também já fomos assim. Lembras-te?

- Sim. E depois?

- Devíamos ter orgulho nos nossos filhos. Tiveram coragem para fazer aquilo que nós nem sequer pensamos em fazer.

Alice ficou algum tempo numa espécie de transe e, por fim, avançou em direcção à filha e abriu os braços. Andreia, soluçando, abraçou-se à mãe. Ricardo foi ter com o pai. Por momentos imperou o silêncio. O sargento segurava a custo uma lagrima. Foi Alice que rasgou aquela silenciosa e comovente cortina em que todos estavam envolvidos.

- Ricardo. Um dia chamei-te pícaro. Desculpas-me?

Um sorriso iluminou o rosto do jovem.

- Está desculpada minha senhora.  

Em seguida dirigiu-se à filha, cujo sorriso envergonhava a lagrima que ainda lhe sulcava o rosto, em falso tom autoritário.

- Não quero que prejudiques os estudos. 

 

SETE ANOS MAIS TARDE.

      

 

            - Estás linda. És a mais bela noiva que esta terra já viu.

            - Obrigada mãe, mas não sei. A mãe, mesmo com uns anitos a mais, ainda me põe a um canto.

            - Cala-te. Estou velha. Quando era da tua idade até era gira.

            Era curioso ver mãe e filha diante do espelho vestidas de noiva tagarelando como duas adolescentes. Alice com um vestido mais sóbrio em tons cinza, Andreia com um deslumbrante vestido branco digno de uma princesa. No meio da loquacidade, Alice ficou triste de repente.

            - O teu pai ia gostar de te ver.

            - Mãe! Por favor, não recorde tristezas.

            - Fez ontem seis anos que foi sepultado. Avisei-o muitas vezes que o álcool acabaria com ele. Mas tens razão. Hoje não é dia para tristezas. Como estarão os noivos?

            A poucos quilómetros dali, Arnaldo estava já pronto para a cerimónia. Ricardo andava ás voltas com uma gravata.

            - Como raio é que se faz a porcaria do nó? Quem inventou esta treta de andar com uma fita atada ao pescoço? Ainda vou sem ela.

            Arnaldo riu com vontade.

            - Vocês, jovens são assim: sabem tudo, dominam computadores, navegam na Internet, mas não sabem fazer um simples nó de gravata. Vem cá.

            Num rápido gesto, Arnaldo ajeitou a gravata ao filho e depois comentou em tom triste.

            - Estás todo boneco. A tua mãe teria orgulho de ti.

            - Pai! Já lá vão cinco anos.

            - Podia estar viva se não escondesse durante tantos anos os sintomas da terrível doença.

            - Pai não se martirize com isso agora.

            - Tens razão. Vamos embora que nós é que temos que esperar pelas senhoras.

            Duas horas depois, Arnaldo e Alice juravam amor e fidelidade eterna perante o padre Alberto. Desviaram-se a seguir para um canto dando lugar ao jovem par composto por Ricardo e Andreia. Foi com teimosas lagrimas que viram seus filhos fazerem igual e sagrado juramento. Retiraram-se, os quatro, com felizes sorrisos nos lábios e o fulgor da esperança a brilhar nos olhos. O velho sacristão embevecido com a cena dirigiu-se ao padre Alberto.

            - Que acha disto, senhor prior?

            - Olha, em quarenta anos de sacerdócio, nunca tal vi. Só te digo uma coisa: a vida dá muita volta e o destino prega-nos muitas partidas. Essa é que é essa.

            Mais tarde, Ricardo e Andreia passeavam junto ao mar. Era uma noite quente e fortemente clareada pelo belo luar de agosto.

            - Olha Ricardo, a lua está linda e há uma estrelinha mesmo junto a ela.

            - É a estrela da nossa felicidade.

            Não muito longe dali, numa varanda de hotel, outro casal em núpcias também observava a lua.

            - Alice, Ainda te lembras?

            - Sim. Há uma estrela ao lado da lua.

 

Fim

Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:46
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
PEDRAS ROLLANTES N.º1 - QUERIA DIZER-TE...

QUERIA DIZER-TE...

Queria dizer-te muitas coisas.

Queria mostrar-te como a tua imagem luminosa

Atravessa as florestas sombrias da minha alma.

Queria falar-te dos momentos que se transformam

Quando os preenches com a tua presença tão terna, tão calma!

 

Queria dizer-te tantas coisas...

Queria dizer-te que estás sempre tão longe de mim

Como os olhos o estão do olhar.

Que quando penso que não estou a pensar em ti

Estou a pensar em ti, sem pensar...

 

Queria dizer-te que te amo.

Queria dar-me aos teus braços e neles cair

Como uma criança cai na cama para dormir.

 

Queria dizer-te muitas coisas.

Mas agora que aqui estou afogo-me em emoção

E não sou capaz de te falar

De tudo o que trago no coração.

 

 

Marisa Soares



publicado por pedrasrollantes às 18:19
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
19
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


posts recentes

A MINHA PINTURA - "TRAGÉD...

A MINHA PINTURA - "DISOLV...

A MINHA PINTURA - "BIVALD...

A MINHA PINTURA - "A ROSA...

A MINHA PINTURA - "MULHER...

A MINHA PINTURA - "LEOPAR...

ROLLING STONES EM PORTUGA...

CONTO VI - A ESPERA

OS STONES NO DRAGÃO

A MINHA MELHOR AMIGA, O M...

arquivos

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

links
blogs SAPO
subscrever feeds