Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
CONTO V - O GATO

Os gatos são animais fabulosos. Levam-nos a alimentá-los, acarinhá-los e a proporcionar-lhe todo o conforto em troca de quase nada. Apetece perguntar: quem domesticou quem? Dizem que o gato não é fiel ao seu dono, mas a natureza é sempre surpreendente.

 

O GATO

 

 

Foi como uma birra de crianças. Eduardo nem era um grande advogado. Ocupava-se apenas de pequenos litígios e divórcios. Para que queria ele uma secretária? Simplesmente para mostrar alguma grandeza aos colegas. Quase duas dezenas de raparigas responderam ao anúncio, mas ele tinha um critério de escolha muito simples: escolheu a mais bonita. Marina tinha vinte e seis anos e era uma autêntica top-model: loura alta e de formas esculturais. A sua competência deixava tudo a desejar mas era ideal para a função pretendida: a função de uma bela fachada.

Eduardo estava sentado no seu modesto gabinete olhando sem qualquer expressão no rosto a fotografia de Rosa. Conhecera-a ainda na faculdade. Casaram pouco depois da formatura dele, visto que ela não completou os estudos. Foram o protótipo do casal feliz até que aquela secretária loura entrou na sua vida como um vírus infeccioso.

Marina era incompetente mas não era burra. Eduardo, apesar de advogado medíocre era um bom partido. Em pouco tempo estudou-lhe o perfil e com artes subtis de sedução colocou-o à sua mercê. Só faltava uma coisa: tirar a Rosa do caminho. Eduardo ainda tinha a zumbir no ouvido aquelas palavras que Marina lhe sussurrou em voz açucarada:

- Querido, na tua profissão já conheceste muitos crimes e criminosos?

- Claro. Sou advogado.

- Com esses conhecimentos e um pouco de imaginação eras bem capaz de dar sumiço à chata da tua mulher que impede a nossa felicidade. 

Eduardo ficou horrorizado com a ideia. Odiava a mulher, mas matá-la era algo que nunca lhe tinha passado pela cabeça. O gato mataria de boa vontade. Sempre odiou gatos e quis o destino que a sua mulher morresse de amores por aquele vadio que um dia lhe apareceu à porta. Marina não lhe voltou a falar no assunto mas ideia continuava-lhe a martelar a cabeça. Tanto martelou que, primeiro, já não lhe parecia tão horrível e depois acabou por se tornar numa necessidade. Já não suportava mais a mulher nem aquele estúpido gato ao colo dela. Naquele dia regressou a casa com uma sinistra decisão tomada.

Entrou em casa e o gato veio-se-lhe coçar às pernas. Ele afastou-o com um pontapé – maldito animal – praguejou. Chamou pela mulher.

- Rosa. Onde estás.

- Aqui na varanda.

A voz vinha da varanda da sala. Aquela varanda do sétimo andar onde moravam. Aproximou-se. Ela estava debruçada olhando a rua. Ele não perdeu a oportunidade. Com um espantoso sangue frio agarrou nos tornozelos à mulher levantou-a e o corpo da pobre Rosa projectou-se no espaço embatendo violentamente no asfalto da rua. Sem perda de tempo, foi buscar um pequeno escadote, detergente para limpar vidros, preparou um cenário convincente e chamou uma ambulância. O comissário da polícia tomou conta da ocorrência e acreditou piamente na história que ouviu.

- Quando cheguei a casa falei-lhe e ela respondeu da varanda. Fui ter com ela. Estava em cima daquele escadote a lavar os vidros da porta. Quando se voltou para me falar escorregou e caiu.

Eduardo fechou os olhos em tom de sofrimento e continuou com voz embargada.

- Ainda lhe deitei as mãos aos tornozelos, mas não a consegui segurar. Que a sua alma me perdoe.

- Pois é doutor Eduardo. Essas coisa estão sempre a acontecer. Tem que ter paciência.

O comissário despediu-se apresentando condolências a Eduardo. Este, ao bater a porta, suspirou fundo com um sorriso de cinismo nos lábios.

Três meses depois Marina e Eduardo deram o nó. Tudo corria bem até que chegou aquele dia. Ainda era tempo de lua-de-mel. Estavam os dois amantes mergulhados num banho de espuma. Um leitor de C.D, colocado estrategicamente no bordo da banheira e ligado à corrente eléctrica, debitava baladas românticas. Marina olhou para a porta entreaberta.

- Eduardo! Não sabia que tinhas um gato!

- Eu!? Quem tinha um gato era a minha mulher. Depois da morte dela nunca mais lhe pus a vista em cima.

- Então e aquele?

Eduardo levantou um pouco a cabeça e viu à entrada da porta o maldito gato. O maior alvo do seu ódio. – Onde raio terá andado este nojento durante meses? – Pensou.

- Olha o cabrão do gato! Onde raio andou ele durante este tempo todo? Tenho que lhe fazer o mesmo que fiz à dona.

- Também acho. Uma coisa que eu detesto é gatos.

- Até nisso somos iguais. Deixa lá que eu trato-lhe da saúde.

O gato aproximou-se sorrateiramente da banheira, abanando a cauda.

- Olha Eduardo. Ele até parece gostar de nós.

- È muito atrevido esse reles.

O gato ronronava junto à banheira, mas de repente soltou um arrepiante miado e antes que eles pudessem reagir formou um salto daqueles que só os gatos sabem dar e, com uma certeira patada, atirou com o leitor de C.D para dentro da banheira. Ao entrar em contacto com a água, o aparelho produziu uma poderosa descarga eléctrica que fez estremecer os dois corpos até sucumbirem em espasmos de morte.

A falha de corrente no prédio, devido ao curto-circuito, alertou os vizinhos. Veio o comissário da polícia e tomou conta do sucedido comentando com os mirones:

- Coitado. Ainda há pouco tempo perdeu a mulher num acidente e agora, que estava a refazer a vida, acontece isto por falta de cuidado estas coisas estão sempre a acontecer. 

 

---///---

 

O gato anda agora à solta nas ruas da sua terra. Procura novos casos em que seja preciso repor a justiça. Ele pode estar em qualquer parte. Porte-se bem.               

   

 

 

Fim

Vitor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:54
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
19
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


posts recentes

A MINHA PINTURA - "TRAGÉD...

A MINHA PINTURA - "DISOLV...

A MINHA PINTURA - "BIVALD...

A MINHA PINTURA - "A ROSA...

A MINHA PINTURA - "MULHER...

A MINHA PINTURA - "LEOPAR...

ROLLING STONES EM PORTUGA...

CONTO VI - A ESPERA

OS STONES NO DRAGÃO

A MINHA MELHOR AMIGA, O M...

arquivos

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds