Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
CONTO IV - O BAILE

Dançar é bom. Faz bem ao corpo e ao espirito. Mais agradável se torna quando se tem uma parceira atraente. Mesmo quando entre nós e ela existe o maior dos abismos.

 

O BAILE

 

 

Quando Carlos entrou, o baile estava animado. O conjunto atacava as notas das músicas mais em voga. Os rapazes dirigiam-se ás raparigas pedindo a honra de uma dança. Alguns, entre sorrisos, tinham a sorte do “sim”, outros levavam um “não” e viravam costas tristonhos acabando por procurar refugio e consolo num copo de cerveja. Carlos era fraco dançarino, um autêntico pé de chumbo, por isso limitou-se a observar o ambiente. Depressa se aborreceu e decidiu ir até ao bar que ficava por cima do salão.

No bar a azafama era grande. Torrentes de cerveja corriam pelo balcão até ás gargantas sequiosas da juventude. O pessoal do bar andava num rodopio. Gritavam ordens para a cozinha e logo surgiam bifanas, cachorros e outras iguarias destinadas a empalhar tanto liquido. Carlos encostou-se ao balcão e esperou pacientemente que lhe servissem um fino. Ia a meio do copo quando uma voz lhe sussurrou ao ouvido.

- O senhor dá-me lume?

Carlos voltou-se e não pôde evitar uma expressão de assombro enquanto um arrepio lhe percorria o corpo. À sua frente estava a mulher mais bela que Carlos já alguma vez tinha visto. Altas sobrancelhas encimavam uns expressivos olhos meigos cor de mel. Um nariz bem desenhado e ligeiramente arrebitado e uns lábios sensuais entreabertos davam-lhe um impar encanto. O cabelo longo e negro contrastava com a alvura da pele. Usava um vestido de fino tecido negro que realçava as suas suaves formas femininas.

Carlos, tremulo, tirou o isqueiro do bolso e acendeu o cigarro à jovem. Esta agradeceu e sorriu. Todo o universo sorriu também. Carlos não podia deixa-la ir embora. Ganhou coragem e fez-lhe um trivial convite.

- Quer tomar alguma coisa? Como vê estou só.

- Também estou só. Mas não costumo beber.

- Beba um sumo.

- Não. Hoje vou experimentar cerveja. 

Carlos pediu dois finos e foram-se sentar na mesa do canto por ser o local mais sossegado.

- Já lhe tinham dito que é muito linda?

- Obrigado. Raramente ouço isso.

- Não acredito. Não tem namorado?

- Não.

- É você que não quer ou são os homens que andam cegos?

Ela riu divertida. Ele continuou.

- Ainda nem sei o seu nome e já estou aqui a fazer perguntas.

- Adelaide. E você?

- Carlos. Agora que estão feitas as apresentações podemos deixar o “você” de parte?

- Está bem. Se você assim quer.

- Diz.

- Se tu assim queres.

- Agora ouvi.

Continuaram assim a tagarelar sobre assuntos sem importância. Carlos estava alucinado com a beleza e a simpatia de Adelaide. Ela escutava-o com toda a atenção e nos seus lábios pairava sempre um angélico sorriso. Do salão de baile chegavam os sons da música. O baile continuava bem vivo. Quando o conjunto mudou de tema, Adelaide exclamou.

- Apetece-me dançar. Estão a tocar música dos anos sessenta.

- Agrada-te essa música velhinha?

- Sim, principalmente esta que é dos Rolling Stones.

- Esse continuam bons.

- Continuam!? Ainda existem!?

- Claro. Não vês as notícias? Ainda há pouco tempo deram um super concerto em Coimbra.

- Os Stones ainda existem! Ando desactualizada. Vamos lá dançar?

Carlos, apesar das suas limitações no campo da dança não podia dizer que não. Quem pode dizer que não a uma mulher que nos encanta?

- Vamos.

Desceram ao salão. Iniciaram a dança. Carlos fazia o que podia para se manter no ritmo. Adelaide, pelo contrário era uma exímia bailarina. Carlos não se importava com a falta de jeito. Estava orgulhoso por ter como par a mais bela mulher daquele baile. Mais tarde voltaram ao bar. Adelaide começava a ficar apreensiva.

- Que tens linda? Estás tão calada.

- É que... tenho que ir embora.

- Já!? Ainda nem é meia-noite.

- Pois é. Mas os meus pais são muito conservadores e querem-me em casa antes da meia-noite.

- Está bem. Não quero que tenhas problemas. Eu levo-te a casa.

- Não te incomodes. É perto. Vou bem sozinha.

- Está a começar de chover. Eu levo-te.

- Está bem. Já vi que és teimoso.

Saíram do edifício. Começava a cair uma chuva miudinha. Carlos pôs a mão no ombro da rapariga e estremeceu. A sua pele era fria, gelada mesmo. Era como se... Se estivesse morta. Correram para o carro. Carlos conduziu seguindo as indicações dela até que chegados a certo ponto ela tocou-lhe no braço.

- Pára aqui. A minha casa é aquela.

- Aquela, alem, ao pé do cemitério?

- Sim. Saio aqui.

- Levo-te á porta.

- Não. Como já te disse, os meus pais são à moda antiga. Não quero que te vejam.

- Pronto, está bem. Quando te volto a ver?

- Vem cá para a semana.

Adelaide ia já a sair.

- Ei. Não mereço um beijo?

Ela colocou-lhe um beijo no rosto e ele notou mais uma vez o toque gelado da sua pele.

- Espera. Leva o meu guarda-chuva

- Não é preciso.

- Leva, depois dás-mo para a semana.

- Está bem, aceito. Agora vai embora.

Ela saiu do carro, abriu o guarda-chuva e começou a andar. Carlos ficou ali parado observando a elegância do seu passo e a forma graciosa como pegava no guarda-chuva. Preparava-se já para fazer a inversão de marcha quando, ao deitar um ultimo olhar a Adelaide ficou petrificado. Ela, em vez de se dirigir à casinha que dizia ser a sua, entrou no cemitério.

– Que vai ela ali fazer a esta hora!? Irá à sepultura de algum familiar? Mas a esta hora!? Rapariga corajosa. Tenho que ir ver.

Carlos pegou numa lanterna e dirigiu-se ao cemitério. Entrou e chamou por Adelaide. Não obteve resposta. Andou mais uns passos e voltou a chamar. O silêncio imperava naquele local tenebroso e sagrado. Iluminou o espaço à sua volta. Algo lhe chamou a atenção. O seu guarda-chuva estava pendurado na cruz de uma sepultura, mas o que viu a seguir gelou-lhe o sangue nas veias e não pôde evitar um grito de horror. Na lápide dessa sepultura podia ler-se claramente:

 

AQUI JAZ

ADELAIDE FERNANDES

N: 03-10-1948

F: 29-04-1973

ETERNO DESCANSO

FIM

                                                                 Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:53
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