Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
CONTO III - BOM DIA SENHOR BARROSO

Na próxima vez que cumprimentar o seu vizinho, nem que seja com um simples “Olá” certifique-se sempre se é correspondido nesse seu gesto cívico. 

 

BOM DIA SENHOR BARROSO

 

 

- Bom dia senhor Barroso.

            - Bom dia meninos. Não se atrasem e tenham cuidado com os carros.

            Era assim todos os dias. O pequeno João e a e pequena Carla tinham que passar naquela rua estreita a caminho da escola. Sensivelmente a meio desta ruela, estava o senhor Barroso sentado à janela do rés-do-chão que habitava há oitenta e dois anos. Era um homem enérgico. Apesar da idade mantinha ainda uma farta cabeleira grisalha. Um farfalhudo bigode dava-lhe um tom ainda mais austero, mas a brandura das suas palavras e os seus modos corteses amenizavam o seu aspecto.    

Filho único de uma humilde família tinha ficado órfão muito cedo. Ainda adolescente trabalhou como aprendiz de sapateiro. Depois do serviço militar aprendeu a arte de alfaiate e mais tarde abriu uma pequena loja de chapéus. Costumava dizer, com alguma graça, que a sua vida profissional tinha começado pelos pés para acabar na cabeça.

Enquanto jovem fora bastante namoradeiro, mas, por opção de vida, ficou solteiro. Após a reforma dedicou-se à mais completa inactividade. Enquanto as pernas ainda o ajudavam passava os dias na tasca da dona Lúcia comendo uns joaquinzinhos regados com o tinto cascarrão. Com o passar dos anos, o reumatismo tomou-lhe conta das pernas de tal forma que agora passava os dias à janela observando a labuta estonteante da cidade.

- Bom dia senhor Barroso.

Agora era a dona Isabel: a alcoviteira do bairro.

- Bom dia Isabel.

- Já sabe da novidade? A minha vizinha Eugenia tinha um amante.

- O quê!? Aquele camafeu!?  

- È verdade. O marido descobriu tudo a arriou-lhe até não poder mais. Deixou-a toda negra. Até já se fala em divórcio.

- Ele também só quer é vinho.

- Olhe senhor Barroso, é uma pouca-vergonha. Vou contar ali à Gina que ainda não deve saber de nada.

Gina era a dona da mercearia logo ali em frente. O senhor Barroso observava agora as duas mulheres. Enquanto uma gesticulava, a outra fazia cara de pasmo no meio dos caixotes da fruta expostos no passeio.

- Bons dias Barroso.

- Bom dia Joaquim. Que andas tu a fazer?

Joaquim e Barroso foram companheiros na tropa.

- Vou até à taberna. Não se pode estar sempre em casa. Anda daí também. Passas os dias à janela. Olha que te faz bem andar.

- Não posso. Até para vir da cama para aqui foram os trinta infernos.

- Pronto. Não te posso obrigar. Então até logo.

- Até logo Joaquim.

Joaquim afastou-se coxeando devido à gota que lhe atacava as articulações.

- È ti Barroso. Você agora está aí bem. Bate-lhe aí o sol.

- Pois é Gina. Então como é que vai o negócio?

- De mal a pior. As pessoas agora só vão aos hipermercados. Só se lembram de mim quando não há dinheiro, quando vêm ao fiado.

- Pois é Gina. Nos hipermercados há tudo menos livro de fiados.

Assim se passavam os dias. À hora de almoço desaparecia por meia hora para ir comer sabe deus o quê. Quando principiava a anoitecer recolhia-se fechando com estrondo a pesada janela de madeira para regressar no dia seguinte.

Um dia o senhor Barroso madrugou mais que o costume. A dona Gina reparou nisso. Quando abriu a mercearia já lá estava ele espreitando o mundo da sua janela.

- È ti Barroso anda muito madrugador.

Ele não respondeu e ela continuou a montagem da sua exposição de vegetais diversos. Pouco depois saltitava pela rua o pequeno João com a pequena Carla de mão dada.

- Bom dia senhor Barroso.

Continuaram a corrida saltitante e, só ao dobrar da esquina, é que Carla se lembrou.

- O velho não nos respondeu.

- Pois não. Se calhar estava a dormir.

Mais um dia chegou ao fim e mais outro dia começou. O Senhor Barroso continuava madrugador. Gina morava por cima da mercearia. Mal se levantou veio à janela e já lá estava ele plantado olhando a rua. Veio abrir a porta para os clientes mais matutinos.

- Bom dia senhor Barroso. Com a sua idade ainda estava bem era na cama.

Ele não respondeu. Gina foi à sua lide. – O velho estará surdo ou zangado comigo? – Pensou.

A dona Isabel vinha apressada pela rua abaixo. Levantou a mão ao senhor Barroso.

- Ò senhor Barroso, vou ali à Gina e já lhe falo. Nem queira saber o que aconteceu.

Entrou de rompante na mercearia.

- Ò Gina sabes da última? A filha da Alexandrina desapareceu há duas noites. A última vez que a viram foi com o namorado. Aquilo fugiram os dois. Que grande pouca-vergonha. Anda uma mãe a criar uma filha para isto. Eu tenho lá duas, deus mas guarde de tal sorte. Também metia-me num poço.

- Isabel. Eu não quero saber de nada disso. A minha vida chega-me bem.

- Está bem, está bem. Vou contar ao velho Barroso.

- Se fosse a ti não ia. O velho anda casmurro como o caraças. Nem a salvação dá a ninguém.

- Ai ele é isso? Então nem lhe digo nada.

Pouco depois passavam as duas crianças.

- Bom dia senhor Barroso.

Mais uma vez não obtiveram resposta.

- Ò João. O velho não disse nada!

- Eu reparei. Amanhã também não damos os bons dias.

Mais um dia chegou ao fim e mais outro dia começou. Gina iniciou a sua rotina. Olhou de esguelha para o velho Barroso. Lá estava ele imóvel e observador. Isabel chegou com as ultimas novidades acerca dum rapazola que bateu no avô. Precisamente no velho colega de tropa do senhor Barroso: o Joaquim.

- Ò Gina. Coitado do homem. Todo lavadinho em sangue. Parecia um cristo. Deus não dará um castigo a estes valdevinos!?

Pouco depois vinham as duas crianças, no seu caminho habitual, entoando uma qualquer cantilena. Ao chegarem perto da janela do senhor Barroso, calaram-se e passaram a direito.

Filipe, o carteiro, desmontava ainda da bicicleta e já acenava com um envelope ao senhor Barroso.

- É senhor Barroso. Aqui vem a cartita do costume: a sua reforma. Não se atrasaram nada.

Aproximou-se.

- Aqui tem. Deus queira que a gaste com saúde.

O homem continuava silencioso. O carteiro Filipe tocou-lhe no braço e a cabeça do ancião tombou em frente. Puxou pelo telemóvel, ligou para a polícia e chamou uma ambulância.

 

---///---

 

O relatório da autópsia revelava morte por acidente vascular cerebral, ocorrida sensivelmente oitenta horas antes da descoberta do corpo.

 

Fim

                                                                  Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:50
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