Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
CONTO II - REENCONTRO

A vida dá muita volta. Muitas vezes desejamos reviver o passado, mas por vezes esse passado saudoso traz-nos amargos sentimentos ao presente.

 

REENCONTRO

 

 

Era Domingo. Um daqueles Domingos radiantes e solarengos típicos de Abril. Após um sumptuoso almoço e um curto passeio, sentei-me na esplanada do café Central. Pedi uma bica à desenvolta e petulante empregada e dediquei-me, indolentemente, a observar os restantes clientes.

            Um casal de velhotes, na mesa ao lado, desfiava o jornal tecendo comentários de assombro sobre notícias de um mundo que corre veloz. Tão veloz que ambos se sentem parados num tempo que já não existe, nem existirá jamais. Imagino-me, quarenta anos mais velho, analisando um jornal em formato digital e lendo notícias de viagens espaciais, humanos modificados geneticamente e casas inteligentes: Aquelas casas que encomendam o papel higiénico via Internet muito antes de cairmos naquela situação abrolhosa e ridícula em que se está sentado, aliviado e sem nada macio e absorvente por perto. Nessa altura, certamente que também ficarei com cara de Rantanplan a olhar para o jornal como aquele simpático casal.

            Havia apenas mais um indivíduo de meia-idade, gordo e vermelho que emborcava cerveja em doses industriais enquanto coçava uma proeminente barriga que anunciava algo de mau lá para os lados do fígado. Completava o conjunto uma senhora que banhava de beijos um cãozinho peludo. Cheguei a ter dó do pobre canídeo que gania maldizendo a sua sorte de vira-lata transformado em cão de luxo.

      Um miúdo e uma miúda aproximam-se de mão dada. Não devem ter mais de catorze anos, mas vêm de mão dada como que a mostrar ao mundo que já não são putos e estão prontos a enfrentar a vida com todos os atravancamentos que eles nem imaginam que existem. Sou forçado a esboçar um sorriso dissimulado entre dois goles de café. Ele de t-shirt com desenhos “tribais”, calças de ganga largas e exibindo uma popa, de fazer inveja ao Tintim, que lhe deve ter custado horas de espelho. Ela de calças pretas pelo tornozelo e t-shirt curta deixando ver um umbigo adornado por um piercing. A fita roxa que lhe ata a cabeça contrasta com os seus cabelos louros. Enfim, um mimoso par de pombinhos.

            Sentaram-se na mesa em frente e pediram Coca-Cola. Seria de esperar. Estes miúdos são loucos por essa mixórdia americana. Enquanto sugam o misterioso líquido por uma palhinha olham-se nos olhos. Há muita ternura naqueles jovens corações que despertam para o amor. Será que também fui assim? Um esforço de memória leva-me à verdura dos meus quinze anos e à recordação da primeira namorada. Chamava-se Mónica. A primeira que vez que sorriu para mim ia tendo um colapso cardíaco. Nessa noite não preguei olho. Quando aceitou o meu tímido pedido de namoro senti-me a alma mais feliz do mundo. Nesse tempo ainda se pedia namoro e namorava-se. Hoje “engata-se” e “anda-se com”. Mas o amor, até mesmo adulto, é efémero, quanto mais na inconstância da adolescência. Quis o destino que a menina Mónica, um mês depois, apenas um mês, baqueasse nos encantos de um jogador de futebol vindo da África do Sul. Fiquei destroçado. Pensei que morria, que nunca mais passaria de uma alma penada e abandonada ao total desprezo. Num momento de lucidez, juntei as fotos, as cartas de amor, os papelinhos passados a meio da aula, as juras de amor eterno rabiscadas em pacotes de açúcar e atirei com tudo para a lareira. Passados estes vinte e cinco anos considero ridículo o meu comportamento desse tempo. Um homem apaixonado é sempre ridículo, mas mais ridículo é aquele que nunca o foi.

Há vinte e cinco anos que não vejo a Mónica. Que será feito dela? Terá casado? Terá filhos? Estará bem na vida? Estes e outros pensamentos abrem a vontade de passear pela cidade. Chamo a empregada. Pago e deixo uma pequena gorjeta que ela agradece com um olhar cintilante e um sorriso surpreendente. A catraia é gira. Levanto-me e enfronho-me na cidade. Só agora reparo que tenho uma nódoa de café na camisa. Acontece-me sempre isto. Caminho sem destino observando as montras indiferente ás suas decorações alusivas á Páscoa que se aproxima. Todas as datas importantes servem para vender. Quando não há natais nem páscoas inventam-se dias do pai, da mãe, dos namorados, etc. Até onde nos levará esta sociedade consumista? Porque raio me havia de lembrar da Mónica? Fiquei mal disposto com estas recordações. Aqueles miúdos reacenderam um fogo há muito extinto.

            Sigo por uma rua de má fama e pouco movimento. De uma tasca saem berros de discórdia. O vinho já está a fazer das suas a esta hora da tarde!? Aqui e além vêem-se prostitutas de olhar deserto, mente deserta, vida deserta. Esta rua não me agrada. Está cheia de chagas sociais. Aquelas chagas que os nossos governantes deviam ver nas campanhas eleitorais em vez de irem dar beijinhos e promessas milagrosas ás ingénuas vendedoras de peixe na praça da ribeira. O que certos ministros precisavam era com um cherne no focinho e um espadarte pelo cu acima.

            Ao virar da esquina sou acercado por uma mulher cujo parco vestuário demostrava a sua actividade.

            - Procuras prazer? Estou disponível.

            Quando sou assim assediado sinto sempre um misto de ódio e compaixão por estas mulheres que caíram no mais baixo que se pode cair em termos de dignidade humana. Normalmente sigo o meu caminho ouvindo um qualquer insulto à minha masculinidade. Esta despertou-me a atenção. Havia algo de familiar naquela filha de um deus menor. Fixei os meus olhos nos dela e um frémito de horror apunhalou-me a alma. À minha frente estava Mónica oferecendo-me, a troco de alguns Euros, algo que eu desejei com loucura na verdura da minha mocidade, Ainda pensei que os meus sentidos estivessem a ser enganados por pensamentos recentes, mas não. Lá estava o mesmo olhar, o mesmo sorriso, o mesmo nariz empinado, o mesmo sinal junto ao lábio superior. Só o ar juvenil de outros tempos é que se tinha transformado num ridículo jeito de mulher fatal a condizer com o ridículo decote da blusa, a ridícula mini-saia de cabedal, as ridículas meias de rede e as ridículas botas de canhão comprido. Eu estava bastante mudado pelo atrito dos anos e de uma vida desregrada, por isso não me reconheceu. Decidi avançar com uma pergunta que nunca tinha feito:

            - Quanto queres?

            - Cinquenta Euros, tratamento completo.

            Puxei por uma nota de cinquenta, deixei-lha cair aos pés e segui o meu caminho.              

                       

 

Fim

Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:48
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