Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
CONTO I - HÁ UMA ESTRELA AO LADO DA LUA

Há quem acredite piamente no destino. Também diz o povo que “ovelha que há-de ser de lobo ninguém lha vai tirar”. Certo é que o amor tem muita força e com ou sem destino a comandar, a vida é cheia de coincidências. 

 

HÁ UMA ESTRELA AO LADO DA LUA

 

 

- Para quem estás a ligar? Para aquele pícaro?

- Já acabei. Era uma amiga.

- Malditos telemóveis.

A porta do quarto fechou-se com estrondo.

Andreia estava estendida na cama procurando outro número na extensa lista do seu telemóvel. Encontrou, marcou, esperou uns poucos segundos.

- Está? Ricardo? Sabes que nome a minha mãe te deu ainda agora?

- Qual?

- Pícaro!

- O que é um pícaro?

- Espera... estou a ver no dicionário... cá está. Pícaro: ardiloso, astuto, burlesco, esperto.

- Os teus pais nunca me vão aceitar.

- É só a minha mãe, mas tem paciência. Com o tempo tudo vai correr bem.

- O meu pai também me anda a chatear, mas acabo por o convencer.

- Francamente não entendo. A minha mãe só te viu uma vez, o teu pai nem me conhece. Que raio vêm eles de errado? Será por sermos novos?

- Pelo menos temos uma aliada. A minha mãe diz que tu és muito linda. E tem razão.

- Bigado pelo elogio. O meu pai também nos defende, mas sabes que a opinião dele aqui não conta. Está um desgraçado feito. Se algum dia fores como ele, ponho-te as malas à porta.

Ricardo apenas respondeu com um profundo suspiro.

- Não dizes nada!?

- Estava a pensar se algum dia teremos porta para tu lá pores as malas ou para que dela para dentro seja o nosso ninho.

A conversa continuou embebida na juventude de ambos até que a porta se voltou a abrir e Alice entrou com modos coléricos 

- Tu para-me já com a porcaria da conversa com esse bandido.

- Não me diga que estava à escuta atras da porta!? Será que não tenho direito a privacidade?

 Alice estava visivelmente irritada. Mais ficou com as palavras da sua única filha.

- Tens direito a tudo quando pagares as tuas contas, incluindo o telemóvel. Por isso estuda em vez de dares trela a esse cão de água. Uma pirralha de quinze anos já quer namorar?

- Você nem o conhece.

- Conheço muito bem, tanto ele como a tralha da família que tem.

- Ah. Então é isso. O problema é ele ser pobre.

- Não é a pobreza que me incomoda. Tu também não és rica. É ele ser filho de... de um canalha.

- Olhe, não conheço o pai, mas também não pretendo namorar com ele. O que está em causa é que o filho é uma jóia de rapaz.

- Filho de burro não pode sair cavalo. Se o pai é uma besta o filho não vai ser melhor. Por isso é melhor acabares com esse conto de fadas.

- Só gostava de saber o que é que ele ou o pai dele fizeram para você os odiar dessa maneira.

- Tenho muitas e boas razões, mas não são coisas que se contem a uma fedelha. Eu da tua idade ainda brincava com bonecas.

- Isso diz você e dizem todas. No seu tempo havia muito mais coisas que agora só que era tudo feito com hipocrisia.

Andreia estava sentada na cama de testa franzida. Alice nunca tinha visto a filha assim tão furiosa. Por isso resolveu apaziguar os ânimos e sentou-se junto a ela falando com brandura.

- Filha. És muito jovem e fácil de iludir. Há tantos rapazes a suspirar por ti que não devias envolver-te tanto com o primeiro que te aparece.

- E se andasse com outro, a mãe já aceitava? Mesmo sendo nova?

- Talvez. O Eduardinho, por exemplo é uma estampa de rapaz, educado, respeitador...

- E rico. Não é mãe? Você quer é um genro rico. Os meus sentimentos que se lixem.

Alice levantou-se de rompante voltando ao tom severo.

- Acabou-se. Não se pode falar contigo. Tu ainda não tens querer e por isso trata de despedir o teu príncipe pé descalço, herdeiro de má catadura, antes que seja eu a reduzi-lo à sua insignificância.  

 Retirou-se batendo com a porta. Andreia ainda teve tempo de ver uma lagrima fortuita no rosto da mãe.

Andreia estendeu-se na cama. Tica, a gata, veio aninhar-se junto dela ronronando baixinho.

- Pois é Tica. És a única que me compreende. Que raio de implicância com o Ricardo. Qualquer dia desapareço daqui para fora.

Tica respondeu com um miado fininho.

Andreia estava prestes a fazer desaseis anos. Tinha a frescura natural da adolescência. O cabelo negro e liso caia-lhe sobre olhos dando uma graça peculiar à testa alta reveladora de inteligência. O nariz empinado aliado aquele sorriso safado dava-lhe um ar atrevido e encantador. O corpo, apesar da tenra idade, revelava já as formas de uma bela mulher a desabrochar. Vestia, quase sempre, de uma forma simples e desportiva. Jeans e t-shirt eram o seu conjunto mais habitual. Alguns acessórios como cintos, lenços e bijutaria adornavam graciosamente a sua airosa figura.

Ricardo Vivia numa aldeia próxima e era seu colega de turma, embora fosse dois anos mais velho devido a dois chumbos de má memória. Logo à primeira vista sentiram uma intensa atracção um pelo outro. Do simples meter conversa ao namoro firme foi um passo de perdigoto. Menos de uma semana foi quanto Ricardo precisou para encantar Andreia. Era um rapaz robusto e musculoso, o cabelo negro e as feições másculas contrastavam com o seu permanente sorriso quase infantil. Andreia deu o “sim” definitivo quando ele lhe ofereceu um passarinho em porcelana e lhe disse que só queria deixar de estar ao lado dela quando aquele passarinho voasse.

- Os pássaros de porcelana não voam.

Disse ela sorrindo como que adivinhando uma resposta.

- Por isso mesmo. Temos a vida toda.

  Não contavam era com a oposição acérrima da mãe dela e do pai dele. Coisa estranha ainda mais que a mãe dele até achava um par giro e o pai dela estava-se simplesmente nas tintas para os namoricos da filha, pelo menos, enquanto houvesse tremoços, caracóis e cerveja a rodos no bar “Flor Da Serra”, onde passava as tardes. Sempre fora dado à boémia, mas piorara após a precoce reforma dos caminhos-de-ferro devido a um acidente que lhe inutilizara um braço.

Alice sentou-se na varanda olhando a faina laboriosa da aldeia enquanto velhos e dolorosos pensamentos lhe atravessavam a mente.

Quem conhecesse o passado não estranharia aquela aversão a este namoro. Alice nunca se intrometeu na vida da filha, mas agora era diferente. Quis o destino, sempre caprichoso, que a sua filha visse com outros olhos o filho de Arnaldo. Precisamente o homem com quem esteve para casar há vinte anos atrás. Alice e Arnaldo mal começaram a namorar já o pai dela ameaçava deserda-la. Provinha de uma família tradicionalmente rica, mas, como tantas outras, estava agora em profunda decadência. Ainda assim era preciso salvar as aparências. Não ia a sua filha casar com o filho do cantoneiro. Arnaldo, revoltado com estas injustiças, partiu de assalto para frança, jurando arranjar um pé-de-meia capaz de satisfazer o pai de Alice. Quando voltou era tarde, tão tarde que encontrou a sua amada casada com um sujeito rude, mas herdeiro de umas terras consideradas valiosas. Alice nunca lhe perdoou por ele ter ido embora e Arnaldo ficou cego de raiva por ela não ter esperado.

Os pensamentos de Alice coincidiam com os de alguém que estava cinco quilómetros mais para oeste numa povoação vizinha. Arnaldo, sentado numa esplanada, recordava tempos felizes passados com Alice. Veio-lhe à lembrança aquela noite junto à fonte. Alice olhava o céu. Estava deslumbrada com a enorme lua cheia que iluminava a noite.

- Olha que giro!

- O quê?

- Aquela estrelinha pertinho da lua!

- A lua é nossa cúmplice e aquela estrela representa o nosso futuro.

Afinal tornou-se estrela de mau agouro, pensava agora Arnaldo. Decidiu afastar aqueles pensamentos que lhe martirizavam a alma quando o filho chegou.

- O pai paga uma jola?

- Pago porque, até preciso falar contigo.

Arnaldo e o filho entraram no velho café “Passarinho”, único na aldeia. Pediram cerveja e sentaram-se na mesa do canto.

- Tu andas mesmo a namorar aquela... aquela rapariga.

- A Andreia? Andamos.

- E isso é serio ou é só no gozo?

- Serio, tão serio que farei dela minha mulher e mãe dos meus filhos.

- Estás a errar. Aquilo não é flor que se cheire. Alem disso são muito novos.

- Somos novos mas também não nos vamos casar já. Devemos tirar um curso primeiro.

- Não te posso impedir, mas se ela é da laia da mãe, tens muito que sofrer.

- Que raio de implicância tem você com a mãe dela e ela consigo?

- Não é da tua conta.

- Rica resposta. É com essa que o pai arruma todas as questões. Se há coisas relacionadas com o meu namoro que só são da sua conta porque quis falar comigo sobre isso?

- Não ias entender. É uma longa história.

- Conte lá a sua história. Ou sou assim tão burro que não possa entender seja lá o que for?

- Não é coisa que se conte aqui no café, mas quando souberes vais entender muita coisa.

- Então quando quiser explicar porque é que o pai odeia uma miúda adorável e é avesso à respectiva mãe eu estou pronto para o ouvir, mas haja o que houver eu não vou largar a Andreia.

Ricardo retirou-se e o pai ficou a meditar no assunto. Não queria magoar o filho, mas tinha que arranjar meios para acabar com aquela paixão que abria velhas feridas.

O tempo foi passando e chegaram as ferias de verão. Ricardo, agora, pouco via Andreia. Passavam horas ao telemóvel fazendo juras de amor eterno. Um dia o silêncio instalou-se da parte de Andreia. Nem chamadas, nem toques, nem mensagens. Ricardo tentava ligar mas o telemóvel dela estava sempre desligado. Que se passaria? Ele pensava se teria feito algo que a magoasse, mas não se lembrava de nada. Teria encontrado outro que o fizesse esquecer assim tão depressa? Ricardo passou dias negros e noites em branco. Assim passou uma semana até que o telemóvel de Ricardo tocou. Ele atendeu com voz trémula e coração agitado.

- Andreia! Até que enfim. Que se tem passado?

- Nem imaginas. Vou ser rápida que estou a falar ás escondidas. A minha mãe bateu-me sem dó nem piedade. Estou toda dorida. Tirou-me o telemóvel e não me deixa sair de casa. Não aguento mais isto.

Ricardo, pela voz combalida, adivinhava as lagrimas no rosto de Andreia.

- Por nossa causa!? Olha tens que ter paciência. O meu pai também me lixa a toda a hora.

- Não tenho paciência nenhuma. Estou farta de atitudes medievais. Vou fugir para longe. Depois mando noticias.

- Espera. Se queres fazer uma loucura, fazemo-la juntos.

 

Arnaldo entrou no posto da G.N.R visivelmente perturbado. Um jovem soldado dispôs-se a atende-lo.

- Diga senhor.

- Quero participar que o meu filho desapareceu.

- Outro!

- Outro porquê?

- Está aí dentro uma senhora a queixar-se do desaparecimento da filha.

Arnaldo estremeceu. Tudo se clareou na sua mente. Adivinhava já quem seria a queixosa.

- Senhor guarda tenho bons motivos para suspeitar que o meu caso está relacionado com esse outro caso. Posso saber quem é a mãe da rapariga?

- Espere um segundo.

O guarda bateu à porta do gabinete.

- Meu sargento. Está aqui um senhor a queixar-se do desaparecimento do filho. Ele acha que pode haver relação.

- Mande entrar.

Arnaldo entrou. O sargento encontrava-se atras de uma pesada e desarrumada secretária. Em frente, uma mulher chorava copiosamente.

- Bom dia sargento. Olá Alice. 

- Cala-te desgraçado. Foi o teu filho que desgraçou a minha filha.

- Olha o meu filho também desapareceu.

- Pois, fugiu de ti que és um miserável e arrastou a minha filha com ele.

- Sim? Ou terá sido a tua filhinha que virou a cabeça ao rapaz?

O sargento maldizia a sua sorte. Era sempre assim. Os nossos filhos eram sempre bons. Os outros é que os desgraçavam. Deu um soco na secretária fazendo voar vários papéis.

- Os senhores fazem o favor de se acalmar e contar o que se passa?

Enquanto Alice caía de novo num mar de lagrimas, Arnaldo esclareceu o melhor que pôde o sargento da guarda. Este tirou vários apontamentos, meditou um pouco e, depois de passar as mãos pelo rosto como querendo apagar os olhos, nariz e boca concluiu.

- Então é assim: o seu filho namorava com a filha desta senhora contra a vossa vontade. A senhora pôs a filha de castigo. A última chamada registada no telemóvel desta senhora era para o seu filho. Portanto, ouve comunicação entre ambos. No dia seguinte desapareceram os dois. Tem toda a razão. Onde está um deve estar o outro.

Alice irrompeu em raiva.

- Pois. Foi o filho deste canalha que a raptou.

- Olha. Foi ela que telefonou ao meu. Pelos vistos, deu-lhe a volta bem dada.

- Os senhores fazem o favor de se calarem e irem para casa? Nós vamos investigar e daremos informações logo que as haja.

Saíram ambos cabisbaixos. O sargento efectuou alguns telefonemas para todos os quartéis da região. As fotos dos dois jovens foram passadas por fax.

Alice começava a ficar arrependida por ser tão dura com a filha. O marido recriminava-a por isso. – Porque não deixas a miúda em paz? Não vês que são namoricos de garotada? Dizia ele quando a via a engendrar castigos. – Agora tens o resultado das tuas paranóias. Mas ele nada sabia do passado de Alice. Como poderia ela ver a sua filha ligada com o filho do homem que a abandonou há vinte anos?

Arnaldo também pensava no filho enquanto consolava a inconsolável esposa. Sentia remorsos por algumas vezes ter azucrinado a cabeça ao rapaz e, secretamente sentia algum orgulho pela atitude do filho.

Ao fim de sete dias, o sargento da G.N.R. apareceu em casa de Arnaldo. Desceu do todo terreno e encaminhou-se para ele com o seu passo militarista.

- Amigo, trago boas noticias. Penso que já localizamos os pombinhos.

Arnaldo não gostou da expressão “pombinhos”, mas a ânsia de novas sobre o seu filho fê-lo esquecer.

- Então? Diga. Estou pronto para tudo.

- Tal como desconfiamos, estão juntos a viver numa cabana junto à praia de Buarcos.

- Buarcos!? Como descobriram?

- Relativamente simples. Eles não foram muito espertos. Acho até que só quiseram pregar um susto. Como sabe, neste tempo há muita gente daqui a passar ferias na Figueira e em Buarcos. Foram mesmo pessoas minhas conhecidas que, sabendo da busca, os viram a fazer compras num supermercado e me comunicaram. Depois, as autoridades de lá depressa localizaram uma cabana meia escondida num antigo parque de campismo.

- A... a outra já sabe?

- A mãe dela? Sim, está no posto à nossa espera. Você vem?

- Claro.

            Alice estava à porta do posto da G.N.R. quando Arnaldo chegou. Ele disse bom dia mas ela não respondeu. Seguiram em direcção à Figueira da Foz com o sargento e um soldado. O sargento fez questão de ser ele próprio a conduzir. No banco detrás Alice e Arnaldo, absortos nos seus pensamentos, não disseram uma palavra até uma boa meia hora de viagem. A certo ponto, Arnaldo decidiu quebrar o gelo.

- Alice.

Ela estremeceu com a forma como ele prenunciou o seu nome. Parecia uma súplica.

- Sim! Falou comigo?

- Acho que, até recuperarmos os nosso filhos, devíamos pôr de parte tudo aquilo que nos separa.

Ela ficou um pouco pensativa, respirou fundo e respondeu.

- Está bem, Até termos aqueles mariolas outra vez em casa, vamos esquecer certas coisas.

- Coisas que até já deviam estar esquecidas. Já lá vão vinte anos.

- Por favor. Não quero falar... disso. Limitamo-nos a tratar deste assunto que nos afecta aos dois e nada mais. Certo?

- Ok.

O sargento olhou para ambos pelo retrovisor. Era um homem habituado a lidar com muita gente, conhecia bem o género humano. Este pequeno dialogo deu para que ele percebesse o que se passava entre ambos.

Atravessaram a cidade da Figueira. Em Buarcos, junto à muralha, um agente da P.S.P esperava-os. Foi ele que os levou até um local despovoado entre Buarcos e Quiaios. Saíram do carro e deslocaram-se a pé até uma moita. Lá estava a cabana construída com desperdícios de chapa e madeira. Arnaldo e Alice já iam a correr para lá, mas o sargento deteve-os.

- Tenham calma. Chamamos primeiro.

Não foi preciso. Os dois jovens apareceram à porta de mão dada. Olharam aquele grupo com altivez. Era a hora de enfrentar tudo e todos. Era hora de mostrar que tinham tomado uma decisão inabalável.

Alice, cega de raiva, correu para eles.

- Minha cabra que te mato.

- Espera Alice.

Arnaldo alcançou-a e segurou-a pela cintura. Ela parou atordoada por aquele abraço enérgico.

- Que ias fazer?

- Partir a cara aquela reles que se diz minha filha.

- Porquê?

- Porquê!? Perguntas porquê!? Que dizer que aprovas aquilo que eles fizeram!?

- Alice. Acalma-te e olha bem para eles.

Alice, mais calma, contemplou os dois jovens que, entretanto, se tinham abraçado. A sua filha já não era mais uma menina e aquele jovem esbelto protegia-a naquele ermo. O seu pensamento voou para outros tempos. Para os verdes anos da sua adolescência. Quantas vezes tinha sonhado com aquela clássica imagem de um amor e uma cabana, Ao lado daquele homem que ainda a segurava virilmente pela cintura?

Voltou-se para Arnaldo. Seus olhares encontraram-se já sem aquela aversão que ambos alimentaram durante anos.

A voz de Alice saiu como um sussurro semelhante ao da brisa fresca que lhe varria o rosto.   

- Que queres que veja?

- Olha bem. Nós também já passamos por isto. Também já fomos assim. Lembras-te?

- Sim. E depois?

- Devíamos ter orgulho nos nossos filhos. Tiveram coragem para fazer aquilo que nós nem sequer pensamos em fazer.

Alice ficou algum tempo numa espécie de transe e, por fim, avançou em direcção à filha e abriu os braços. Andreia, soluçando, abraçou-se à mãe. Ricardo foi ter com o pai. Por momentos imperou o silêncio. O sargento segurava a custo uma lagrima. Foi Alice que rasgou aquela silenciosa e comovente cortina em que todos estavam envolvidos.

- Ricardo. Um dia chamei-te pícaro. Desculpas-me?

Um sorriso iluminou o rosto do jovem.

- Está desculpada minha senhora.  

Em seguida dirigiu-se à filha, cujo sorriso envergonhava a lagrima que ainda lhe sulcava o rosto, em falso tom autoritário.

- Não quero que prejudiques os estudos. 

 

SETE ANOS MAIS TARDE.

      

 

            - Estás linda. És a mais bela noiva que esta terra já viu.

            - Obrigada mãe, mas não sei. A mãe, mesmo com uns anitos a mais, ainda me põe a um canto.

            - Cala-te. Estou velha. Quando era da tua idade até era gira.

            Era curioso ver mãe e filha diante do espelho vestidas de noiva tagarelando como duas adolescentes. Alice com um vestido mais sóbrio em tons cinza, Andreia com um deslumbrante vestido branco digno de uma princesa. No meio da loquacidade, Alice ficou triste de repente.

            - O teu pai ia gostar de te ver.

            - Mãe! Por favor, não recorde tristezas.

            - Fez ontem seis anos que foi sepultado. Avisei-o muitas vezes que o álcool acabaria com ele. Mas tens razão. Hoje não é dia para tristezas. Como estarão os noivos?

            A poucos quilómetros dali, Arnaldo estava já pronto para a cerimónia. Ricardo andava ás voltas com uma gravata.

            - Como raio é que se faz a porcaria do nó? Quem inventou esta treta de andar com uma fita atada ao pescoço? Ainda vou sem ela.

            Arnaldo riu com vontade.

            - Vocês, jovens são assim: sabem tudo, dominam computadores, navegam na Internet, mas não sabem fazer um simples nó de gravata. Vem cá.

            Num rápido gesto, Arnaldo ajeitou a gravata ao filho e depois comentou em tom triste.

            - Estás todo boneco. A tua mãe teria orgulho de ti.

            - Pai! Já lá vão cinco anos.

            - Podia estar viva se não escondesse durante tantos anos os sintomas da terrível doença.

            - Pai não se martirize com isso agora.

            - Tens razão. Vamos embora que nós é que temos que esperar pelas senhoras.

            Duas horas depois, Arnaldo e Alice juravam amor e fidelidade eterna perante o padre Alberto. Desviaram-se a seguir para um canto dando lugar ao jovem par composto por Ricardo e Andreia. Foi com teimosas lagrimas que viram seus filhos fazerem igual e sagrado juramento. Retiraram-se, os quatro, com felizes sorrisos nos lábios e o fulgor da esperança a brilhar nos olhos. O velho sacristão embevecido com a cena dirigiu-se ao padre Alberto.

            - Que acha disto, senhor prior?

            - Olha, em quarenta anos de sacerdócio, nunca tal vi. Só te digo uma coisa: a vida dá muita volta e o destino prega-nos muitas partidas. Essa é que é essa.

            Mais tarde, Ricardo e Andreia passeavam junto ao mar. Era uma noite quente e fortemente clareada pelo belo luar de agosto.

            - Olha Ricardo, a lua está linda e há uma estrelinha mesmo junto a ela.

            - É a estrela da nossa felicidade.

            Não muito longe dali, numa varanda de hotel, outro casal em núpcias também observava a lua.

            - Alice, Ainda te lembras?

            - Sim. Há uma estrela ao lado da lua.

 

Fim

Vítor Fernandes



publicado por pedrasrollantes às 13:46
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