Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
PEDRAS ROLLANTES N.º1 - DIÁRIO DE UMA CABRA MOCHA I

DIÁRIO DE UMA CABRA MOCHA

 

Janeiro de 2006 – O ano já começou, mas a ressaca do reveilon ainda me pesa na cabeça. O tempo está miserável e não dá para sair de casa.

            Bateram à porta. Fui abrir. Apareceu-me uma loura deslumbrante que tentou a todo o custo vender-me uma cabra mocha. Chegou a dizer-me que teria direito a um útil e prático arranhador de costas com pilhas incluídas, caso pagasse a pronto. Ainda hesitei, mas o bom senso acabou por vencer. Mandei-a embora, mas fiquei com algum remorso ao vê-la descer a rua cabisbaixa com a cabra pela trela. No meu íntimo desejei que voltasse atrás. Não voltou.

            Enquanto a chuva fustiga as vidraças fui vasculhar o sótão. No primeiro baú que abri encontrei o diário da minha avó. Fiquei a pensar se devia ou não mergulhar nas intimidades dela. A curiosidade venceu. Abri o diário e fechei-o logo a seguir. Nas primeiras páginas estava a prova de que ela tinha secretíssimas ligações com a máfia russa e com a associação de defesa do lince da serra da Malcata.

As frias noites de Inverno podiam ser de sono repousante se não fossem atafulhadas de sonhos com gafanhotos carnívoros, minhocas aladas e carapaus mutantes.

 

Fevereiro de 2006 Continua o tempo frio e chuvoso. Tenho que arranjar um passatempo para isso mesmo: passar o tempo. Decidi dedicar-me à construção naval em miniatura e fazer um barco com fósforos. Talvez uma replica da nau que levou Vasco da Gama à Índia. Deitei mãos à obra, mas surgiu o primeiro problema: não tinha um único fósforo em casa. Não me deixei abater e tratei de improvisar: fiz o barco com isqueiros.

Não ficou nada parecido com um barco. Parecia mais uma nave espacial. Coloquei-o numa prateleira com o título: “Nau Futurista”.

De vez em quando chegava à janela na esperança de ver a loura com ou sem cabra mocha. Em vez dela vieram dois soldados da GNR com ordem para vasculhar a minha casa. Uma velhota tinha sido violada vinte e quatro vezes. (uma vez contra a vontade, duas vezes contra a parede e vinte e uma vez a seu próprio pedido). Eu era suspeito e só não fui preso porque uma loura testemunhou a meu favor afirmando que estivera em minha casa à hora do crime a tentar vender-me uma cabra mocha.

No Carnaval disfarcei-me de tosta mista. Foi um sucesso. Ganhei mesmo o primeiro lugar num concurso de máscaras organizado pela “Associação Filarmónica Gaita Dourada”.

 

Março de 2006 Chegaram os primeiros dias solarengos e com eles a vontade de sair para a rua. Decidi por em prática algo que ruminei durante o Inverno: dedicar-me à arqueologia. Muni-me de pá e picareta e comecei a escavar o meu quintal. Ao fim do dia já tinha a descoberto duas latas de atum, uma tesoura de podar sem mola, uma caixa de leite Nido e o selim de uma bicicleta. Todos estes objectos estão expostos no fundo da minha garagem que transformei em museu.

 

Abril 2006 Vesti o meu melhor fato, coloquei um cravo vermelho ao peito e saí para a rua cantando a “Grândola vila morena”. Fui assobiado e ridicularizado. Disseram-me coisas do tipo: é foleiro andar de cravo ao peito. A revolução já foi há trinta e tal anos e foi feita por um grupo de arruaceiros. Já não temos governo, mas sim um grupo de marionetas comandados pelos banqueiros e grupos económicos. A nossa economia está nas mãos dos espanhóis. As multinacionais instalam-se aqui por algum tempo e depois vão embora deixando tudo no desemprego. Os nossos têxteis faliram devido à concorrência chinesa. Cada vez há mais famílias endividadas, por outro lado aumenta o número de carros e apartamentos de luxo. A segurança social está à beira da falência. Milhares de reformados vivem com menos de 200 euros ao lado de reformas de 20.000 euros. Depois de ouvir isto tudo voltei para casa de cravo murcho ao peito. A revolução tinha fracassado. Quando cheguei tinha uma cabra mocha no meu jardim. Fiquei cheio de esperança. Mais tarde ou mais cedo a dona loira viria buscar a cabra. Observando melhor conclui que estava prenha. Em breve haveria vida nova. Tratei de telefonar a um restaurante e mandei vir o jantar: uma salada russa para mim e uma piza para a cabra.

 

Maio de 2006 - Pensei bem e decidi fazer uma peregrinação a Fátima. Fiz-me ao caminho, mas quis ser diferente dos outros. Sempre achei que os peregrinos, por estarem em penitência, procuram o lado mais difícil das coisas. Afastei-me deles em busca de caminhos alternativos. Percorri carreiros, encruzilhadas e caminhos de cabra com e sem cabras. Na madrugada do dia 13 de Maio, quando milhares de fieis se reuniam na Cova da Iria, entrava eu triunfalmente em Viana do Castelo. A viagem de regresso foi mais fácil graças à experiência de um taxista cego que conhecia as estradas do país de olhos fechados. Ao chegar a casa a cabra mocha já tinha parido. Pariu dois cabritos, uma cegonha, duas solhas e uma tartaruga das ilhas Galápagos. Não há dúvida que esta cabra é uma grande cabra.

 

Junho de 2006 - já cheira a verão. Enquanto me dedicava ao meu novo passatempo: caçar borboletas com arco e flecha, vi um vulto no horizonte. Pelas formas esbeltas e pelo movimento ondulado não havia dúvida de que era um ananás. Perdão, uma mulher. Ao chegar mais perto vi claramente visto que era a loira dona da cabra. Vinha certamente reclamar o animal caprino e respectiva descendência. Assim era. Depois de muita conversa e algumas bofetadas, convenci-a a formar um lar comigo, com a cabra, os cabritos, a cegonha e a tartaruga. (as solhas tinham sido grelhadas por mau comportamento). Ela aceitou, mas confidenciou-me que estava grávida de dois meses. Ofereci-me para ser o pai e ela aceitou. Se for da raça da cabra sou capaz de lá para o natal ser pai de um belo pinguim, de uma tarântula fofa ou mesmo de um menino. Não importa. Agora sou um homem feliz. Agora tenho uma cabra.



publicado por pedrasrollantes às 13:48
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